segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Era uma vez...


18 de Janeiro de 2013

Era uma vez um coração que vivia e batia, porque é o que um coração faz. Não era feliz nem infeliz. Ele amava, em especial, dois outros corações. Mas muitas vezes, sentia um vazio dentro de si. Existia um cantinho, um espaço por preencher. Ele desejava secretamente um novo coração que o fizesse bater, novamente, de alegria. Um dia algo aconteceu... o corpo que o envolvia começava a gerar uma nova vida. Aos poucos, um novo coraçãozinho surgia. O coração bateu de felicidade, tinha nova companhia. Mas veio a mãe-natureza que o preveniu, algo não estava bem com o invólucro do seu pequeno coração. O coração não quis saber, ignorou, estava tão feliz! Um novo amor começava a crescer dentro de si, preenchendo aos poucos, o espaço vazio que tanto lhe doía. E os dois batiam felizes por estarem juntos, por se poderem amar livremente. O coração, por vezes, pensava no que a mãe-natureza lhe tinha dito, mas logo tentava esquecer. Como seria possível que algo viesse acabar com tanto amor? E o amor crescia a cada dia. Era lindo voltar a amar assim! O coraçãozinho sentia-se agradecido por ser tão bem amado. Valia a pena viver ali. Por sua vez, o coração sentia medo, mas não conseguia parar de amar. Sentia um prazer imenso em poder amar incondicionalmente um outro coração. Um dia, a mãe-natureza voltou e a razão falou... Ela disse ao coração que a mãe-natureza não tinha levado o coraçãozinho mais cedo, porque o coração lhe pedira, mesmo sem palavras, que ela não o fizesse. O coração vivia tão sedento de amor, que a mãe-natureza prolongou-lhe aquele momento. Foram semanas de puro amor. A razão observara tudo, mas mantivera-se longe, respeitara os sentimentos do seu amigo coração. E soubera sempre que ele iria sofrer, mais cedo ou mais tarde. Chegado o momento, conversou com ele. A mãe-natureza esperava e sabia que agora precisaria de ajuda, não ia conseguir separá-los sózinha. Então, a razão disse ao coração que ele sabia, que no fundo sempre soubera, que aquele dia ia chegar. E que ele sabia que era o mais certo a fazer, o corpo que envolvia o pequeno coração, estava doente e não havia outra solução. O coração chorou, uma dor imensa o trespassou e ele sangrou de tanta agonia. Como era possível? Porquê deixá-los amarem-se tanto, se aquele amor estava condenado ao fim? A razão respondeu que esse amor seria eterno e que um dia ele iria compreender. O coração chorou e gritou mais alto, bateu com toda a sua força, revoltado... Mas acima de tudo, infeliz. O pequeno coraçãozinho sentia-se resignado, já tinha aceite o seu destino. Só o coração se debatia contra a mãe-natureza e a razão. Porquê fazerem-no sofrer tanto? Que iria ser do seu coraçãozinho? E que faria ele com tanto amor que transbordava de si mesmo? A razão por muito que tentasse, não conseguia acalmá-lo. Tentou fazê-lo ver que se o pequeno coração continuasse junto dele, ambos iriam sofrer mais e mais tarde. E que, possivelmente, o sofrimento seria maior. Era chegada a hora da separação. O coração chorou todos os dias e, para se proteger, tentou ignorar e desprezar o seu coraçãozinho. Mas era impossível e inaceitável. A razão incentivou-o a amá-lo uma vez mais. E o coração amou. Acarinhou o seu pequenino, conversou com ele, mimou-o como tantas vezes o fizera. Despedia-se, a cada batimento, a cada pulsação. Sentia-se muito infeliz e perguntava-se, o que teria feito de errado... Porque é que o seu coraçãozinho não podia viver e ficar com ele para sempre? E a razão sussurrava "mas ficará...". O coração começou a acreditar, a ter fé, de que o seu pequenino estaria sempre com ele, mas que tinha de partir, para não sofrer. Encheu-se de coragem e falou com a mãe-natureza, pediu-lhe para que ela não magoasse o seu coraçãozinho. Pediu ajuda à razão, para que ela o ajudasse a superar tamanho sofrimento. A razão respondeu que estaria sempre ali, que nunca o iria deixar esquecer aquele grande amor e, que lhe daria forças para continuar. Deixou-os a sós... E eles amaram-se uma última vez. Choraram e prometeram amarem-se para sempre. Quando, finalmente, o coraçãozinho o abandonou, e a mãe-natureza o levou, o coração explodiu de tanta dor... perdera um grande amor. Hoje, vive e bate, perguntando-se porquê... Porque é que foi presenteado com tão belo e verdadeiro amor, para depois ser-lhe arrancado sem dó nem piedade? Porquê receber tão belo presente, para depois ter de chorar a sua perda? Apesar da angústia em que vive deste então, o coração sente que o seu coraçãozinho não o abandonou por completo. Sente que ele está sempre por perto. Mas sabe que tem de o deixar partir... Que o seu pequeno coração deve voltar para o seu mundo, puro e inocente. A razão acaricia-o e diz-lhe que, talvez um dia, ele possa amar assim de novo, e sem sofrimento. O coração tem medo e não sabe o que fazer com tanto amor que sobrou. Deseja que a razão esteja certa e secretamente anseia por um novo pequeno coração.

Carla André

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