Era
uma vez um coração que vivia e batia, porque é o que um coração faz. Não era
feliz nem infeliz. Ele amava, em especial, dois outros corações. Mas muitas
vezes, sentia um vazio dentro de si. Existia um cantinho, um espaço por
preencher. Ele desejava secretamente um novo coração que o fizesse bater,
novamente, de alegria. Um dia algo aconteceu... o corpo que o envolvia começava
a gerar uma nova vida. Aos poucos, um novo coraçãozinho surgia. O coração bateu
de felicidade, tinha nova companhia. Mas veio a mãe-natureza que o preveniu,
algo não estava bem com o invólucro do seu pequeno coração. O coração não quis
saber, ignorou, estava tão feliz! Um novo amor começava a crescer dentro de si,
preenchendo aos poucos, o espaço vazio que tanto lhe doía. E os dois batiam
felizes por estarem juntos, por se poderem amar livremente. O coração, por
vezes, pensava no que a mãe-natureza lhe tinha dito, mas logo tentava esquecer.
Como seria possível que algo viesse acabar com tanto amor? E o amor crescia a
cada dia. Era lindo voltar a amar assim! O coraçãozinho sentia-se agradecido
por ser tão bem amado. Valia a pena viver ali. Por sua vez, o coração sentia
medo, mas não conseguia parar de amar. Sentia um prazer imenso em poder amar
incondicionalmente um outro coração. Um dia, a mãe-natureza voltou e a razão
falou... Ela disse ao coração que a mãe-natureza não tinha levado o
coraçãozinho mais cedo, porque o coração lhe pedira, mesmo sem palavras, que
ela não o fizesse. O coração vivia tão sedento de amor, que a mãe-natureza
prolongou-lhe aquele momento. Foram semanas de puro amor. A razão observara
tudo, mas mantivera-se longe, respeitara os sentimentos do seu amigo coração. E
soubera sempre que ele iria sofrer, mais cedo ou mais tarde. Chegado o momento,
conversou com ele. A mãe-natureza esperava e sabia que agora precisaria de
ajuda, não ia conseguir separá-los sózinha. Então, a razão disse ao coração que
ele sabia, que no fundo sempre soubera, que aquele dia ia chegar. E que ele
sabia que era o mais certo a fazer, o corpo que envolvia o pequeno coração,
estava doente e não havia outra solução. O coração chorou, uma dor imensa o
trespassou e ele sangrou de tanta agonia. Como era possível? Porquê deixá-los
amarem-se tanto, se aquele amor estava condenado ao fim? A razão respondeu que
esse amor seria eterno e que um dia ele iria compreender. O coração chorou e
gritou mais alto, bateu com toda a sua força, revoltado... Mas acima de tudo,
infeliz. O pequeno coraçãozinho sentia-se resignado, já tinha aceite o seu
destino. Só o coração se debatia contra a mãe-natureza e a razão. Porquê
fazerem-no sofrer tanto? Que iria ser do seu coraçãozinho? E que faria ele com
tanto amor que transbordava de si mesmo? A razão por muito que tentasse, não
conseguia acalmá-lo. Tentou fazê-lo ver que se o pequeno coração continuasse
junto dele, ambos iriam sofrer mais e mais tarde. E que, possivelmente, o
sofrimento seria maior. Era chegada a hora da separação. O coração chorou todos
os dias e, para se proteger, tentou ignorar e desprezar o seu coraçãozinho. Mas
era impossível e inaceitável. A razão incentivou-o a amá-lo uma vez mais. E o
coração amou. Acarinhou o seu pequenino, conversou com ele, mimou-o como tantas
vezes o fizera. Despedia-se, a cada batimento, a cada pulsação. Sentia-se muito
infeliz e perguntava-se, o que teria feito de errado... Porque é que o seu
coraçãozinho não podia viver e ficar com ele para sempre? E a razão sussurrava
"mas ficará...". O coração começou a acreditar, a ter fé, de que o
seu pequenino estaria sempre com ele, mas que tinha de partir, para não sofrer.
Encheu-se de coragem e falou com a mãe-natureza, pediu-lhe para que ela não
magoasse o seu coraçãozinho. Pediu ajuda à razão, para que ela o ajudasse a
superar tamanho sofrimento. A razão respondeu que estaria sempre ali, que nunca
o iria deixar esquecer aquele grande amor e, que lhe daria forças para
continuar. Deixou-os a sós... E eles amaram-se uma última vez. Choraram e
prometeram amarem-se para sempre. Quando, finalmente, o coraçãozinho o
abandonou, e a mãe-natureza o levou, o coração explodiu de tanta dor... perdera
um grande amor. Hoje, vive e bate, perguntando-se porquê... Porque é que foi
presenteado com tão belo e verdadeiro amor, para depois ser-lhe arrancado sem
dó nem piedade? Porquê receber tão belo presente, para depois ter de chorar a
sua perda? Apesar da angústia em que vive deste então, o coração sente que o
seu coraçãozinho não o abandonou por completo. Sente que ele está sempre por
perto. Mas sabe que tem de o deixar partir... Que o seu pequeno coração deve
voltar para o seu mundo, puro e inocente. A razão acaricia-o e diz-lhe que,
talvez um dia, ele possa amar assim de novo, e sem sofrimento. O coração tem
medo e não sabe o que fazer com tanto amor que sobrou. Deseja que a razão
esteja certa e secretamente anseia por um novo pequeno coração.
Carla André
Carla André

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