Perdi o meu filho, à 21 dias. Estava grávida de 18 semanas (clinicamente 20 semanas). Tenho
escrito muito sobre o que sinto, e isso têm-me ajudado a aliviar o meu
sofrimento. Aos poucos a dor vai-se atenuando, mas nunca me abandona por
completo. A cada dia que passa, vou sentindo que tomei a decisão certa... Vou
aceitando a minha perda. O meu bebé era muito doente. Não seria justo para
nenhum de nós, trazê-lo ao mundo, para sofrer. O médico nunca me deu qualquer
esperança, ele poderia morrer dentro de mim, ao nascimento ou algumas horas
após. O que ele tinha, ao certo, ainda não sei. No final de Fevereiro saberei,
ou não, quando me for entregue o resultado dos exames e autópsia. Sei apenas
que era uma doença óssea grave. As fotos do meu bebé confirmam, graves
deformações nos braços e perninhas do meu anjinho. O médico falou em doença
genética... Esperarei pelo seu diagnóstico. Há pouco mais de 15 anos fui mãe de
uma menina. Tinha eu 20 anos, era demasiado jovem para ser mãe. Como tal,
sentia-me contrariada e revoltada. Confesso que pensei em abortar. Felizmente,
não o fiz, não tive essa coragem. Hoje tenho nela a minha melhor amiga, o meu
grande amor. Assumi a minha gravidez e abdiquei de todos os meus sonhos e
projectos, para a criar e amar. Não foi fácil, existiam tantos "ses"
em meus pensamentos. E existia um forte ressentimento contra a minha filha, algo
que eu não conseguia controlar, mas que nunca me impediu de cuidar dela, como
ela merecia. E eu sabia que ela era uma criança feliz. Esforcei-me por ser uma
boa mãe, apesar dos apesares. E cresci com ela. Tornámo-nos amigas,
companheiras... Superámos juntas todos os obstáculos que a vida insistiu em
colocar no nosso caminho. Mas eu sempre senti, que apesar de ter sido uma boa
mãe, que poderia ter sido ainda melhor. Vivi muito à pressa a sua infância, não
desfrutei a 100% todos os momentos, deveria ter sido melhor mãe. Quando voltei
a engravidar, 15 anos depois, julguei que seria esta a minha oportunidade de
voltar a amar assim alguém, agora com menos pressa, com mais prazer. Mas o
destino não o permitiu. Castigo? Talvez... Há 15 anos pensei em abortar um bebé
saudável e agora que desejava tanto este, tive de abortar devido à falta de
saúde. Não sei... Não compreendo. Martirizo-me com este pensamento. Eu que
finalmente estava mais que preparada para ser mãe de novo, com tanto amor para
dar, perdi o meu menino... Não é justo. Não existem palavras no mundo que descrevam esta dor imensa. Não foi uma gravidez planeada mas também não evitada. Vivia momentos de incerteza dentro da minha relação, muitos altos e baixos... Mas a única certeza que eu tinha, é que gostava muito de voltar a ser mãe, ter algo meu e
do meu companheiro, um filho do homem que amo. E tive, ainda que por pouco
tempo... E terei, teremos para sempre. Apesar de tudo, no final
de Setembro descobri que estava grávida. Não fiquei logo feliz, senti uma
aflição no meu peito. Desde meados do mês que sentia fortes dores no
baixo-ventre e rins. Dores que foram se intensificando a cada dia que passava,
assemelhando-se às contracções de um trabalho de parto. No inicio, pensei que a
menstruação desse mês seria bastante dolorosa (como acontecera em outros
meses), e as dores só passariam quando ela chegasse... Afinal estava mesmo
grávida, quando julguei que já não seria possível. Fomos ao hospital, onde
se confirmou a gravidez e sendo o nosso receio, a hipótese de uma gravidez
ectópica, fizeram-me outras análises que tive de repetir dois dias depois.
Disseram-me que estava tudo bem, que apesar de o embrião ser ainda invisível,
estaria bem instalado no meu útero. Quanto às dores, não me souberam
diagnosticar, em mim seriam normais... Aconselharam-me a consultar a minha
ginecologista. O meu maior receio naquele momento, era o facto de trabalhar com
produtos químicos, em contacto com gases altamente tóxicos, numa fábrica sem
condições, sem qualquer tipo de ventilação e sem uso de máscaras próprias para
aquele género de trabalho. Facto a que nem o médico do hospital nem a minha
ginecologista deram importância. Apenas o meu médico de família se interessou
pelo caso, prevenindo-me de que se o meu corpo estava a reagir dessa forma à
gravidez é porque talvez o meu bebé já estivesse intoxicado e o meu organismo o
quisesse expulsar. Ele disse que muitas vezes quando o nosso corpo detecta
essas malformações nas células que se estão formando, a sua resposta, é o
aborto espontâneo. Falou que o melhor seria denunciar as condições na fábrica onde eu
trabalhava. Foi assim que se confirmou a falta de condições no meu local
de trabalho. E eu só pensava para mim "se calhar o mal já está feito, se
calhar o meu bebé já está doente". Só após essa inspecção, é que os meus
patrões se dignaram a vir falar comigo e a informarem-me de quais eram os
químicos realmente tóxicos para o meu embrião e quais os trabalhos que eu
deveria evitar. E só em Novembro me deram uma máscara própria para usar.
Enquanto isso, as dores foram-se atenuando, sentia-as todos os dias, mas cada
vez mais fracas. Como a médica-ginecologista, nunca se mostrou preocupada,
comecei a descontrair e a desfrutar da minha gravidez. Com um inicio de
gravidez tão conturbado, eu tinha tentado não me afeiçoar ao meu
"feijãozinho", mas agora tudo parecia mais normal. E deixei-me levar
ao sabor do amor... Mas a minha preocupação mantinha-me, sempre alerta, porque
eu achava que as dores que sentia não eram, de facto, normais. Eu amava o meu
bebé, mas sentia-me angustiada, algo em mim me avisava que ele não estava bem.
Tentei ignorar essa voz que me falava todos os dias para me preparar... Quando
fui à consulta das 12 semanas (clinicamente falando, porque eu estaria de 10),
a ginecologista disse que estava tudo bem e que portanto só precisava de voltar
dali a 6 semanas, dia 5 de Janeiro de 2013. Saí do consultório tão feliz, que
rumei ao shopping mais próximo para presentear o meu bebé com alguma
roupinha... Finalmente, me senti mais aliviada. Mas a tal voz nunca me
abandonou. Eu desprezei-a totalmente e decidi amar o meu bebé como ele merecia.
E sonhava, como ele seria, com os momentos que iriamos partilhar, com todo o
amor que eu tinha para lhe dar. Estava tão feliz! E sentia que ia ser um
menino, o meu menino. Dia 5 de Janeiro chegou, sentia-me nervosa e muito
ansiosa. Adoeci dois dias antes, sentia-me estranha... receosa. Antes de entrar
no consultório, tremia. Percebi que algo não estava bem, mas quis ignorar o que
sentia. Quando, finalmente, a médica iniciou a ecografia, o meu coração bateu
mais forte... Senti a sua apreensão. Ela media e media, repetia e repetia,
demorava e demorava. O meu coração encolheu-se no meu peito. Finalmente, ela
demonstrou um pouco mais de calor no meio da sua tipica frieza. Estava
preocupada. Disse que o meu bebé parecia ter os ossos das pernas muito curtos.
Marcou-nos uma consulta com um outro especialista. Apartir desse dia, as lágrimas
foram minha companhia. O meu bebé estava doente, e eu já há muito que sabia...
Tinha consulta, no hospital, no dia 8 de Janeiro, Terça-feira, às 13 horas.
Entrei na madrugada desse mesmo dia, nesse mesmo hospital, com uma hemorragia.
Observaram-me, fizeram nova ecografia e não detectaram o problema. Fiquei
internada para observação. Às 13 horas e 30 minutos, fui atendida pelo médico,
simpático e atencioso. Fez-me a ecografia "especial" e foi
conversando comigo, não demonstrando qualquer tipo de emoção. Senti-me mais
aliviada, "talvez não seja nada" pensei eu. Acabando o exame, disse-me
que tinha uma reunião de seguida e, que portanto, só depois poderia falar
comigo e apresentar-me o resultado da ecografia. Fiquei de novo alerta, ele
talvez para me acalmar, ofereceu-me uma "foto" do rosto do meu bebé.
Fiquei fascinada, conseguia ver os olhinhos, a boquinha e o lindo narizinho. Ao
fim de duas horas o médico pediu para falar comigo e de uma forma bastante
penosa me informou que o meu bebé tinha graves problemas, indicando uma grave
doença óssea. As lágrimas saltaram-me dos olhos e uma dor imensa invadiu todo o
meu corpo, apertando o meu coração. Perguntei-lhe se podíamos fazer alguma
coisa, e ele respondeu que não. Cada vez que me lembro desse momento, a dor volta
com a mesma intensidade. Como é possível uma mãe ter de sofrer assim?
Continuámos a falar, mas eu só queria fugir, para longe daquele pesadelo,
daquela minha realidade. Ele queria fazer mais exames, inclusivé, a
amniocentese. Falei-lhe no aborto. Ele aconselhou-me a esperar um pouco mais,
ou até mesmo a avançar com a gravidez, visto que muitas vezes, só ao fim dos
nove meses de gestação se pode diagnosticar melhor a doença. Concordei apenas
com a amniocentese, o que me obrigaria a esperar mais um mês. O médico
"convenceu-me" ao dizer que os riscos de fazer o aborto agora ou
depois seriam os mesmos para mim. Fui para o quarto lavada em lágrimas...
Afinal, tudo o que eu sentia desde o inicio, era verdade, o meu bebé estava
condenado. Sozinha, pensando de mim para mim, cheguei à conclusão que o ficar à
espera mais um mês, só me faria pior emocionalmente. O médico tinha-me
garantido que não havia esperanças para o meu bebé. Apenas queria estudar o meu
caso, afinal, eles antes de serem médicos, são cientistas. O meu companheiro
veio ter comigo ao hospital, depois do trabalho, e decidimos então que não
valia a pena esperar, íamos abortar. No dia seguinte, informei o médico, que
ficou desiludido comigo e me disse que apesar da doença, aquela vida pertencia
ao meu bebé... Respondi-lhe que não era justo, nem para mim nem para o meu
bebé, trazê-lo a este mundo para sofrer... Era eu que tinha de decidir. Visto
que a amniocentese não iria nunca mudar o estado de saúde do meu bebé, eu tinha
de abortar e não podia esperar. Eu só queria que aquele triste sonho acabasse e
ir para casa... Para os braços da minha filha e do homem que amo. Ele
explicou-me então como seria todo o procedimento: primeiro tinha de conversar
com uma psiquiatra que atestaria se eu estava em condições psicológicas de
tomar aquela decisão. No dia seguinte, tomaria três comprimidos que iriam
preparar o meu corpo para a expulsão do meu bebé. Depois, iria para casa dois
dias e, voltaria ao hospital, onde me aplicariam um ou dois comprimidos, via vaginal,
para induzir o trabalho de parto. No final, perguntei-lhe se o meu bebé iria
sofrer, ele respondeu que os cientistas crêem que neste tempo de vida, os bebés
não sentem qualquer dor... Eu quis acreditar, mas o facto de ele não me olhar
nos olhos ao falar-me, deixou-me na dúvida. Mas tentei acreditar na mesma, o meu
bebé não podia sofrer, e certamente não teria passado por esta vida para saber
o que é o sofrimento. E era a isso, que eu o iria poupar. Foi a semana mais
triste de toda a minha vida. Nunca pensei sentir dor igual. Que angústia, que
agonia. Sexta-feira dia 11 de Janeiro tomei os 3 comprimidos. Antes disso, e devido às dores que eu sentira na noite anterior, o médico fez-me outra ecografia, a placenta já se começara a descolar... Para mim era um sinal, sinal de que este era já o fim destinado ao meu bebé. Voltei para casa. Passei o tempo a chorar. Sábado senti a necessidade de me despedir do meu
bebé, enquanto ele ainda vivia dentro de mim. Escrevi-lhe uma carta, dizendo
tudo o que sentia, e pedindo-lhe desculpa... Assim me despedi dele, prometendo
amá-lo sempre e para sempre. No Domingo voltei ao hospital, fui internada às 10
horas, o meu bebé "nasceu" às 19 horas do dia 13 de Janeiro de 2013.
O meu dia mais infeliz... Quando o seu corpo abandonou o meu, algo em mim se
perdeu, algo meu morreu... E eu chorei como nunca tinha chorado. Como será
possível alguém sofrer assim? Eu amava tanto o meu anjinho e fui obrigada a
enviá-lo de volta ao seu mundo. Após o seu "nascimento" a enfermeira
cuidou dele com muito carinho, como se ele fosse vivo... Perguntou se eu o
queria ver, mas fui incapaz. No final, ofereceu-me umas fotos dele, que só fui
capaz de ver no passado Domingo. Estava tão doente o meu menino... Porque a
mãe-natureza permitiu tal coisa? Chorei tanto depois de ver as fotografias do
meu anjinho... Ele não merecia. Ele merecia ser feliz comigo... E talvez o
tenha sido. Eu amei-o, e amo, tanto. Ele sentiu o amor que eu tinha por ele...
E foi por isso, que no final, não me importei de o acompanhar até ao fim da sua
viagem, mesmo com toda a dor física que senti. Porque ele merecia que eu
estivesse a seu lado. E a dor física não era nada, em relação à dor que eu
sentia na minha alma, ao entregá-lo de volta ao mundo, puro e inocente, onde os
anjos repousam e olham pela gente. Hoje, sinto que foi nesse momento, que os
nossos corpos se separaram e as nossas almas se uniram para todo o sempre.
Carla André
Carla André

Nao pude deixar de ler.... Quero só deixar um grande Beijinho e tenho so a dizer.. apesar de tudo é uma grande Mae... beijinhos grande
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