segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A minha história...


Perdi o meu filho, à 21 dias. Estava grávida de 18 semanas (clinicamente 20 semanas). Tenho escrito muito sobre o que sinto, e isso têm-me ajudado a aliviar o meu sofrimento. Aos poucos a dor vai-se atenuando, mas nunca me abandona por completo. A cada dia que passa, vou sentindo que tomei a decisão certa... Vou aceitando a minha perda. O meu bebé era muito doente. Não seria justo para nenhum de nós, trazê-lo ao mundo, para sofrer. O médico nunca me deu qualquer esperança, ele poderia morrer dentro de mim, ao nascimento ou algumas horas após. O que ele tinha, ao certo, ainda não sei. No final de Fevereiro saberei, ou não, quando me for entregue o resultado dos exames e autópsia. Sei apenas que era uma doença óssea grave. As fotos do meu bebé confirmam, graves deformações nos braços e perninhas do meu anjinho. O médico falou em doença genética... Esperarei pelo seu diagnóstico. Há pouco mais de 15 anos fui mãe de uma menina. Tinha eu 20 anos, era demasiado jovem para ser mãe. Como tal, sentia-me contrariada e revoltada. Confesso que pensei em abortar. Felizmente, não o fiz, não tive essa coragem. Hoje tenho nela a minha melhor amiga, o meu grande amor. Assumi a minha gravidez e abdiquei de todos os meus sonhos e projectos, para a criar e amar. Não foi fácil, existiam tantos "ses" em meus pensamentos. E existia um forte ressentimento contra a minha filha, algo que eu não conseguia controlar, mas que nunca me impediu de cuidar dela, como ela merecia. E eu sabia que ela era uma criança feliz. Esforcei-me por ser uma boa mãe, apesar dos apesares. E cresci com ela. Tornámo-nos amigas, companheiras... Superámos juntas todos os obstáculos que a vida insistiu em colocar no nosso caminho. Mas eu sempre senti, que apesar de ter sido uma boa mãe, que poderia ter sido ainda melhor. Vivi muito à pressa a sua infância, não desfrutei a 100% todos os momentos, deveria ter sido melhor mãe. Quando voltei a engravidar, 15 anos depois, julguei que seria esta a minha oportunidade de voltar a amar assim alguém, agora com menos pressa, com mais prazer. Mas o destino não o permitiu. Castigo? Talvez... Há 15 anos pensei em abortar um bebé saudável e agora que desejava tanto este, tive de abortar devido à falta de saúde. Não sei... Não compreendo. Martirizo-me com este pensamento. Eu que finalmente estava mais que preparada para ser mãe de novo, com tanto amor para dar, perdi o meu menino... Não é justo. Não existem palavras no mundo que descrevam esta dor imensa. Não foi uma gravidez planeada mas também não evitada. Vivia momentos de incerteza dentro da minha relação, muitos altos e baixos... Mas a única certeza que eu tinha, é que gostava muito de voltar a ser mãe, ter algo meu e do meu companheiro, um filho do homem que amo. E tive, ainda que por pouco tempo... E terei, teremos para sempre. Apesar de tudo, no final de Setembro descobri que estava grávida. Não fiquei logo feliz, senti uma aflição no meu peito. Desde meados do mês que sentia fortes dores no baixo-ventre e rins. Dores que foram se intensificando a cada dia que passava, assemelhando-se às contracções de um trabalho de parto. No inicio, pensei que a menstruação desse mês seria bastante dolorosa (como acontecera em outros meses), e as dores só passariam quando ela chegasse... Afinal estava mesmo grávida, quando julguei que já não seria possível. Fomos ao hospital, onde se confirmou a gravidez e sendo o nosso receio, a hipótese de uma gravidez ectópica, fizeram-me outras análises que tive de repetir dois dias depois. Disseram-me que estava tudo bem, que apesar de o embrião ser ainda invisível, estaria bem instalado no meu útero. Quanto às dores, não me souberam diagnosticar, em mim seriam normais... Aconselharam-me a consultar a minha ginecologista. O meu maior receio naquele momento, era o facto de trabalhar com produtos químicos, em contacto com gases altamente tóxicos, numa fábrica sem condições, sem qualquer tipo de ventilação e sem uso de máscaras próprias para aquele género de trabalho. Facto a que nem o médico do hospital nem a minha ginecologista deram importância. Apenas o meu médico de família se interessou pelo caso, prevenindo-me de que se o meu corpo estava a reagir dessa forma à gravidez é porque talvez o meu bebé já estivesse intoxicado e o meu organismo o quisesse expulsar. Ele disse que muitas vezes quando o nosso corpo detecta essas malformações nas células que se estão formando, a sua resposta, é o aborto espontâneo. Falou que o melhor seria denunciar as condições na fábrica onde eu trabalhava. Foi assim que se confirmou a falta de condições no meu local de trabalho. E eu só pensava para mim "se calhar o mal já está feito, se calhar o meu bebé já está doente". Só após essa inspecção, é que os meus patrões se dignaram a vir falar comigo e a informarem-me de quais eram os químicos realmente tóxicos para o meu embrião e quais os trabalhos que eu deveria evitar. E só em Novembro me deram uma máscara própria para usar. Enquanto isso, as dores foram-se atenuando, sentia-as todos os dias, mas cada vez mais fracas. Como a médica-ginecologista, nunca se mostrou preocupada, comecei a descontrair e a desfrutar da minha gravidez. Com um inicio de gravidez tão conturbado, eu tinha tentado não me afeiçoar ao meu "feijãozinho", mas agora tudo parecia mais normal. E deixei-me levar ao sabor do amor... Mas a minha preocupação mantinha-me, sempre alerta, porque eu achava que as dores que sentia não eram, de facto, normais. Eu amava o meu bebé, mas sentia-me angustiada, algo em mim me avisava que ele não estava bem. Tentei ignorar essa voz que me falava todos os dias para me preparar... Quando fui à consulta das 12 semanas (clinicamente falando, porque eu estaria de 10), a ginecologista disse que estava tudo bem e que portanto só precisava de voltar dali a 6 semanas, dia 5 de Janeiro de 2013. Saí do consultório tão feliz, que rumei ao shopping mais próximo para presentear o meu bebé com alguma roupinha... Finalmente, me senti mais aliviada. Mas a tal voz nunca me abandonou. Eu desprezei-a totalmente e decidi amar o meu bebé como ele merecia. E sonhava, como ele seria, com os momentos que iriamos partilhar, com todo o amor que eu tinha para lhe dar. Estava tão feliz! E sentia que ia ser um menino, o meu menino. Dia 5 de Janeiro chegou, sentia-me nervosa e muito ansiosa. Adoeci dois dias antes, sentia-me estranha... receosa. Antes de entrar no consultório, tremia. Percebi que algo não estava bem, mas quis ignorar o que sentia. Quando, finalmente, a médica iniciou a ecografia, o meu coração bateu mais forte... Senti a sua apreensão. Ela media e media, repetia e repetia, demorava e demorava. O meu coração encolheu-se no meu peito. Finalmente, ela demonstrou um pouco mais de calor no meio da sua tipica frieza. Estava preocupada. Disse que o meu bebé parecia ter os ossos das pernas muito curtos. Marcou-nos uma consulta com um outro especialista. Apartir desse dia, as lágrimas foram minha companhia. O meu bebé estava doente, e eu já há muito que sabia... Tinha consulta, no hospital, no dia 8 de Janeiro, Terça-feira, às 13 horas. Entrei na madrugada desse mesmo dia, nesse mesmo hospital, com uma hemorragia. Observaram-me, fizeram nova ecografia e não detectaram o problema. Fiquei internada para observação. Às 13 horas e 30 minutos, fui atendida pelo médico, simpático e atencioso. Fez-me a ecografia "especial" e foi conversando comigo, não demonstrando qualquer tipo de emoção. Senti-me mais aliviada, "talvez não seja nada" pensei eu. Acabando o exame, disse-me que tinha uma reunião de seguida e, que portanto, só depois poderia falar comigo e apresentar-me o resultado da ecografia. Fiquei de novo alerta, ele talvez para me acalmar, ofereceu-me uma "foto" do rosto do meu bebé. Fiquei fascinada, conseguia ver os olhinhos, a boquinha e o lindo narizinho. Ao fim de duas horas o médico pediu para falar comigo e de uma forma bastante penosa me informou que o meu bebé tinha graves problemas, indicando uma grave doença óssea. As lágrimas saltaram-me dos olhos e uma dor imensa invadiu todo o meu corpo, apertando o meu coração. Perguntei-lhe se podíamos fazer alguma coisa, e ele respondeu que não. Cada vez que me lembro desse momento, a dor volta com a mesma intensidade. Como é possível uma mãe ter de sofrer assim? Continuámos a falar, mas eu só queria fugir, para longe daquele pesadelo, daquela minha realidade. Ele queria fazer mais exames, inclusivé, a amniocentese. Falei-lhe no aborto. Ele aconselhou-me a esperar um pouco mais, ou até mesmo a avançar com a gravidez, visto que muitas vezes, só ao fim dos nove meses de gestação se pode diagnosticar melhor a doença. Concordei apenas com a amniocentese, o que me obrigaria a esperar mais um mês. O médico "convenceu-me" ao dizer que os riscos de fazer o aborto agora ou depois seriam os mesmos para mim. Fui para o quarto lavada em lágrimas... Afinal, tudo o que eu sentia desde o inicio, era verdade, o meu bebé estava condenado. Sozinha, pensando de mim para mim, cheguei à conclusão que o ficar à espera mais um mês, só me faria pior emocionalmente. O médico tinha-me garantido que não havia esperanças para o meu bebé. Apenas queria estudar o meu caso, afinal, eles antes de serem médicos, são cientistas. O meu companheiro veio ter comigo ao hospital, depois do trabalho, e decidimos então que não valia a pena esperar, íamos abortar. No dia seguinte, informei o médico, que ficou desiludido comigo e me disse que apesar da doença, aquela vida pertencia ao meu bebé... Respondi-lhe que não era justo, nem para mim nem para o meu bebé, trazê-lo a este mundo para sofrer... Era eu que tinha de decidir. Visto que a amniocentese não iria nunca mudar o estado de saúde do meu bebé, eu tinha de abortar e não podia esperar. Eu só queria que aquele triste sonho acabasse e ir para casa... Para os braços da minha filha e do homem que amo. Ele explicou-me então como seria todo o procedimento: primeiro tinha de conversar com uma psiquiatra que atestaria se eu estava em condições psicológicas de tomar aquela decisão. No dia seguinte, tomaria três comprimidos que iriam preparar o meu corpo para a expulsão do meu bebé. Depois, iria para casa dois dias e, voltaria ao hospital, onde me aplicariam um ou dois comprimidos, via vaginal, para induzir o trabalho de parto. No final, perguntei-lhe se o meu bebé iria sofrer, ele respondeu que os cientistas crêem que neste tempo de vida, os bebés não sentem qualquer dor... Eu quis acreditar, mas o facto de ele não me olhar nos olhos ao falar-me, deixou-me na dúvida. Mas tentei acreditar na mesma, o meu bebé não podia sofrer, e certamente não teria passado por esta vida para saber o que é o sofrimento. E era a isso, que eu o iria poupar. Foi a semana mais triste de toda a minha vida. Nunca pensei sentir dor igual. Que angústia, que agonia. Sexta-feira dia 11 de Janeiro tomei os 3 comprimidos. Antes disso, e devido às dores que eu sentira na noite anterior, o médico fez-me outra ecografia, a placenta já se começara a descolar... Para mim era um sinal, sinal de que este era já o fim destinado ao meu bebé. Voltei para casa. Passei o tempo a chorar. Sábado senti a necessidade de me despedir do meu bebé, enquanto ele ainda vivia dentro de mim. Escrevi-lhe uma carta, dizendo tudo o que sentia, e pedindo-lhe desculpa... Assim me despedi dele, prometendo amá-lo sempre e para sempre. No Domingo voltei ao hospital, fui internada às 10 horas, o meu bebé "nasceu" às 19 horas do dia 13 de Janeiro de 2013. O meu dia mais infeliz... Quando o seu corpo abandonou o meu, algo em mim se perdeu, algo meu morreu... E eu chorei como nunca tinha chorado. Como será possível alguém sofrer assim? Eu amava tanto o meu anjinho e fui obrigada a enviá-lo de volta ao seu mundo. Após o seu "nascimento" a enfermeira cuidou dele com muito carinho, como se ele fosse vivo... Perguntou se eu o queria ver, mas fui incapaz. No final, ofereceu-me umas fotos dele, que só fui capaz de ver no passado Domingo. Estava tão doente o meu menino... Porque a mãe-natureza permitiu tal coisa? Chorei tanto depois de ver as fotografias do meu anjinho... Ele não merecia. Ele merecia ser feliz comigo... E talvez o tenha sido. Eu amei-o, e amo, tanto. Ele sentiu o amor que eu tinha por ele... E foi por isso, que no final, não me importei de o acompanhar até ao fim da sua viagem, mesmo com toda a dor física que senti. Porque ele merecia que eu estivesse a seu lado. E a dor física não era nada, em relação à dor que eu sentia na minha alma, ao entregá-lo de volta ao mundo, puro e inocente, onde os anjos repousam e olham pela gente. Hoje, sinto que foi nesse momento, que os nossos corpos se separaram e as nossas almas se uniram para todo o sempre.

Carla André





1 comentário:

  1. Nao pude deixar de ler.... Quero só deixar um grande Beijinho e tenho so a dizer.. apesar de tudo é uma grande Mae... beijinhos grande

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