segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Antes do aborto...


10 de Janeiro de 2013


Estou no hospital à espera que o médico me diga quando iniciaremos o procedimento, a expulsão do meu bebé... Estou grávida de 17 semanas (clinicamente 19). Imagino que o pior ainda esteja para vir, mas este tempo de espera corrói-me por dentro. Quem me dera que o meu bebé fosse saudável e eu não tivesse que o tirar de dentro de mim. Mas a realidade é outra... No Sábado a minha médica viu que algo não estava bem e encaminhou-me para esta clinica. Terça um médico especializado efectuou a ecografia que veio a confirmar que o meu bebé não é nem nunca será saudável. Ao certo não soube explicar, só me disse que tem graves problemas a nível ósseo (esqueleto) e que precisava de mais tempo para diagnosticar a doença. De qualquer forma, não me deu qualquer esperança, ao dizer que tudo o que via eram indícios de graves doenças, e que não podia fazer nada pelo meu bebé. Falou na hipótese de ele poder morrer durante a gestação, após o parto ou mesmo sobrevivendo, que teria pouco tempo de vida. Mas tudo isso seria, será, uma incógnita. Ainda assim, apesar de compreender a minha decisão, tentou convencer-me a não abortar. Aqui na Suíça, a mentalidade é outra... Aconselhou-me a fazer a amniocentese, esperar os resultados e fazer mais análises e outra ecografia, para ele tentar compreender melhor a doença. Após isso, poderia abortar na mesma se assim o desejasse. Aliás, ao que entendi, o ideal para ele seria eu levar a gravidez avante, porque só nessa altura, ele poderia diagnosticar realmente a doença do meu bebé. Eu pensei para mim "ele é médico, mas é em primeiro lugar um cientista... é normal que me incentive a continuar a gestação, para continuar a sua investigação cientifica". Por outro lado, falou-me que era uma vida que estava dentro de mim (eu que sei isso melhor do que ele), uma vida que tem direito a viver... ao que eu respondi que tipo de vida teria este bebé se sobrevivesse? Óbvio que não me soube responder, apenas me soube dizer que muita gente opta por ter os seus bebés apesar das doenças e deficiências. Eu apenas lhe disse que isso não seria justo para mim e para o bebé, eu nunca iria trazer ao mundo uma criança para sofrer, ou para servir de cobaia a uma equipa de cientistas e médicos. Apesar de sentir que ele compreende a minha decisão, não senti apoio da sua parte. E enquanto espero, vou-me despedindo do meu bebé e ao mesmo tempo tentando ignorá-lo, para evitar maior sofrimento, mas é impossível, e só quem passou por este momento de angústia é que me consegue compreender. Pelo que percebi, eles vão tentar que o procedimento seja o menos doloroso para o bebé (será isso possível?) e para mim, óbvio. Ainda irei para casa com ele este fim de semana (ele, um menino)... mas este tempo de espera mata-me, pensei que seria mais rápido. Tomarei 3 comprimidos e irei para casa por 2 dias, o tempo para o meu organismo se preparar, depois virei para a clinica onde me darão um ultimo comprimido, que supostamente, induzirá o aborto/parto... só espero que me ponham a dormir, não quero essa triste recordação. Tudo isto e já tao doloroso, não preciso de recordar esse momento, já ficarei marcada por esta dor para sempre. Só preciso que isto acabe rápido para eu poder voltar para casa e tentar "esquecer" tudo. Voltar, aos poucos, à minha vida, à minha filha que adoro, ao homem que amo. Quanto ao meu bebé, acredito que seja um anjinho que teria a sua missão e que talvez já a tenha cumprido. Talvez a sua missão fosse eu, e eu só a compreenderei mais tarde... Porque finalmente, apesar de todos os sinais (o mal-estar e dores que eu sabia não serem normais), resolvi ter esperança em algo, afinal algo sem esperança. Não sei como irei superar isto, mas sei que o farei e sei que este bebé ira ser recebido no lugar onde os anjos repousam.


Continuo à espera que o médico me informe de quando iniciaremos o procedimento. Sinto que uma parte de mim morre lentamente... e na verdade, morrerá em breve. Sinto que tomei a decisão certa, mas nem por isso deixa de ser dolorosa. E é por isso que eu não posso, não devo esperar muito mais, dói muito senti-lo dentro de mim sabendo que nunca o irei ter nos meus braços. Prefiro chorar agora do que chorar mais tarde por não ter tomado esta decisão. O médico tem a certeza que ele não é normal nem saudável, só não consegue identificar ainda a doença. Porque hei-de eu esperar mais tempo, fazer mais exames, se nada disso mudará o estado de saúde do meu bebé? Mais tempo trará mais dor e sofrimento. Agora só quero acordar deste pesadelo... foi um lindo sonho, mas acabou.


"E se..." existirá sempre, mas eu acredito no médico. A minha médica viu algo de errado nos ossos das pernitas, a médica que me observou na madrugada de terça-feira viu o mesmo. Tinha o exame marcado para as 13 horas mas tive de vir às urgências porque comecei com uma hemorragia, nessa madrugada, que ainda não parou e os médicos não sabem de onde vem. O médico às 13 horas e 30 fez-me a tal ecografia "especial" que detectou os restantes problemas, graves problemas. Ele disse que até mesmo os sintomas que tenho (dores fortíssimas e mal-estar geral) desde o inicio da gravidez, são indicativos de que algo não estava bem. Já o meu medico de família me tinha "avisado" disso, mas como ainda era cedo para detectar algo e a minha ginecologista não se mostrou preocupada, apesar de dizer que as minhas dores não eram normais... eu mantive sempre a esperança de que estaria tudo bem com o meu bebé. O facto é que eu acredito no médico, a medicina evoluiu bastante nos últimos anos e ele próprio quis ser sincero e não me dar falsas esperanças quanto à saúde do meu bebé. Eu acredito, porque desde o inicio que sentia que algo estava errado com o meu bebé e os factores à minha volta mais me "ajudavam" a recear... tenho 36 anos, tenho uma deformação acentuada no útero, trabalho com químicos altamente tóxicos, e afinal o meu companheiro tem, na família, casos de doenças nos ossos. As dores continuam, por vezes mais fortes, e a hemorragia, apesar de ser mais fraca, também. Pergunto-me porque é que a natureza não me ajuda então, em vez de termos de forçar o aborto. Tudo isto, para mim, é um sinal que está na hora de nos separarmos. E não digo isto porque o deseje, mas porque começo a aceitar que tem mesmo de ser. Apenas me resigno à realidade. O meu desejo é que o meu bebé fosse saudável e que não tivéssemos de passar por isto. Mas não há nada a fazer quanto a isso. A única coisa que posso fazer é evitar a nossa infelicidade e de quem nos rodeia... 

Carla André


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