17 de
Janeiro de 2013
Preciso de
desabafar a minha dor... por isso vou enchendo páginas e páginas, tentando
aliviar este meu sofrimento. Nenhuma mulher deveria passar por tamanha agonia. Perder um filho é o que há de
mais doloroso na vida de alguém. Sempre pensei assim, hoje sei-o... Quando
tomei a decisão de abortar, sem dúvida que foi o instante mais doloroso vivido
até ao momento. Mas quando, finalmente senti o meu bebé a ser expulso do meu
corpo, esse sim, foi o momento mais infeliz da minha vida. Que tristeza tão sem
medida... tristeza essa que, desde então, possui todo o meu corpo, toda a minha
alma. Tristeza que agora não me abandona um momento sequer, deixando-me
despojada de mim mesma. O meu bebé de 18 semaninhas "vive" longe de
mim, para sempre. Quando me explicaram como seria o aborto induzido, eu fiquei
muito assustada. Ia passar por um parto, sem no final ter o meu filho nos
braços... só pensava em minimizar a minha dor física e psicológica. Mas hoje
sei que foi o melhor para mim e para o meu anjinho. Hoje compreendo o porquê de
induzirem o parto. É o respeito pela vida, a vida humana. Ele merecia nascer
como qualquer outro bebé, apesar daquele momento, ser o fim da sua viagem. E eu
precisava também, de passar com ele, por esse momento. Foi, naquele instante,
que os nossos corpos se separaram e que as nossas almas se uniram. Naquele
quarto de hospital, cuidaram bem do meu menino, como se ele tivesse nascido
"normal e perfeito"... como se ainda fosse vivo. Foram carinhosos e
atenciosos. Queriam que eu olhasse para ele, pela primeira e ultima vez, mas
fui incapaz. E então tiraram-lhe fotografias, colocaram-lhe um pequeno gorro e
umas luvinhas, talvez para disfarçar as suas "imperfeições", e no
final ofereceram-me-os, junto com a mantinha onde o envolveram com tanto
cuidado, quando o levaram para longe de mim. Foi enternecedora a forma como
cuidaram do meu menino. Também me foi oferecido um postal com os dados do seu
nascimento e a marca dos seus pézinhos. Uma marca de que ele passou por esta
vida. Quem me dera que ele tivesse tido a oportunidade de nascer em Junho de
boa saúde e levar logo todos aqueles carinhos e miminhos... carinhos e miminhos
que também eu lhe daria mal me o colocassem nos braços. Mas isso agora é apenas
um lindo sonho que eu tive, e que teve um final infeliz. Ainda não fui capaz de
ver as fotos, tenho medo do que mais irei sentir. Tenho o quarto, que seria
dele, enfeitado com anjinhos e velas, para o homenagear todos os dias. Falo com
ele como falava dantes, quando ele ainda vivia no meu ventre, e sinto falta da
minha barriguinha, tenho saudades dos seus pequenos e suaves movimentos. Sempre
acreditei que iriamos ficar juntos para sempre e tentei a todo o custo ignorar
a sensação de que algo não estava bem com a minha gravidez. Hoje sei, que se
pudesse, tentaria de novo... não para o substituir, porque ele foi único, mas
porque o meu peito ficou a transbordar de um amor infinito, capaz de me
consumir até à extinção.
Carla André
Carla André

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