segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Desabafo...


17 de Janeiro de 2013

Preciso de desabafar a minha dor... por isso vou enchendo páginas e páginas, tentando aliviar este meu sofrimento. Nenhuma mulher deveria passar por tamanha agonia. Perder um filho é o que há de mais doloroso na vida de alguém. Sempre pensei assim, hoje sei-o... Quando tomei a decisão de abortar, sem dúvida que foi o instante mais doloroso vivido até ao momento. Mas quando, finalmente senti o meu bebé a ser expulso do meu corpo, esse sim, foi o momento mais infeliz da minha vida. Que tristeza tão sem medida... tristeza essa que, desde então, possui todo o meu corpo, toda a minha alma. Tristeza que agora não me abandona um momento sequer, deixando-me despojada de mim mesma. O meu bebé de 18 semaninhas "vive" longe de mim, para sempre. Quando me explicaram como seria o aborto induzido, eu fiquei muito assustada. Ia passar por um parto, sem no final ter o meu filho nos braços... só pensava em minimizar a minha dor física e psicológica. Mas hoje sei que foi o melhor para mim e para o meu anjinho. Hoje compreendo o porquê de induzirem o parto. É o respeito pela vida, a vida humana. Ele merecia nascer como qualquer outro bebé, apesar daquele momento, ser o fim da sua viagem. E eu precisava também, de passar com ele, por esse momento. Foi, naquele instante, que os nossos corpos se separaram e que as nossas almas se uniram. Naquele quarto de hospital, cuidaram bem do meu menino, como se ele tivesse nascido "normal e perfeito"... como se ainda fosse vivo. Foram carinhosos e atenciosos. Queriam que eu olhasse para ele, pela primeira e ultima vez, mas fui incapaz. E então tiraram-lhe fotografias, colocaram-lhe um pequeno gorro e umas luvinhas, talvez para disfarçar as suas "imperfeições", e no final ofereceram-me-os, junto com a mantinha onde o envolveram com tanto cuidado, quando o levaram para longe de mim. Foi enternecedora a forma como cuidaram do meu menino. Também me foi oferecido um postal com os dados do seu nascimento e a marca dos seus pézinhos. Uma marca de que ele passou por esta vida. Quem me dera que ele tivesse tido a oportunidade de nascer em Junho de boa saúde e levar logo todos aqueles carinhos e miminhos... carinhos e miminhos que também eu lhe daria mal me o colocassem nos braços. Mas isso agora é apenas um lindo sonho que eu tive, e que teve um final infeliz. Ainda não fui capaz de ver as fotos, tenho medo do que mais irei sentir. Tenho o quarto, que seria dele, enfeitado com anjinhos e velas, para o homenagear todos os dias. Falo com ele como falava dantes, quando ele ainda vivia no meu ventre, e sinto falta da minha barriguinha, tenho saudades dos seus pequenos e suaves movimentos. Sempre acreditei que iriamos ficar juntos para sempre e tentei a todo o custo ignorar a sensação de que algo não estava bem com a minha gravidez. Hoje sei, que se pudesse, tentaria de novo... não para o substituir, porque ele foi único, mas porque o meu peito ficou a transbordar de um amor infinito, capaz de me consumir até à extinção.

Carla André

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