segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

À espera...


11 de Janeiro de 2013

Continuo à espera... À espera que o médico se digne a vir falar comigo... porque é que prolongam o meu sofrimento? Sendo já um momento tão penoso, porque não me ajudam a "aliviar" esta dor que me rasga por dentro? Porquê esta tortura cruel? Não chega eu descobrir que o meu bebé é doente e ter de decidir pôr um fim a sua vida? Haverá sofrimento maior? Nunca perdi ninguém na vida, que eu amasse... mas não imagino que haja maior perda que a de um filho. É uma parte de nós que morre e que dói para sempre. Apesar dele só existir à quase 18 semanas, dentro de mim, amo-o como se já fizesse parte da minha vida à muito muito tempo. Esse amor nasce dentro de nós e vai crescendo à medida que o bebé se vai desenvolvendo. A ligação entre nós se fortalece a cada dia que passa. Não é justo passar por isto. Se algo não estava bem, porque é que a natureza não se encarregou da situação? Seria melhor assim... Eu sentia que algo não estava bem. Mesmo antes de descobrir que estava grávida, as dores intensas que eu sentia, como se estivesse em trabalho de parto, não eram normais. Esperei pela menstruação que não veio e fiz teste, estava grávida. Não fiquei feliz porque receei imediatamente que algo não estivesse bem. Podia estar para abortar ou ser uma gravidez ectópica... dirigi-me às urgências que me enviaram para esta mesma clinica. Não perceberam o porquê das dores, o embrião era "invisível", mas através de análises ao sangue disseram-me que não era gravidez ectópica. Para confirmar, marcaram novas analises para 2 dias depois. Estava tudo bem. Aconselharam-me a marcar consulta na minha ginecologista, assim o fiz. Mas eu não estava descansada e as dores continuaram por mais 2 semanas. Após esse tempo, acalmaram mas continuaram sempre, no baixo-ventre e rins. A minha maior preocupação era o facto de trabalhar com produtos químicos e tóxicos, numa fábrica mal ventilada, sem máscara própria... facto que foi ignorado, tanto pelo médico que me atendeu nas urgências desta clinica, assim como, pela minha ginecologista. Hoje penso se esse factor não terá também tido influência no estado de saúde do meu bebé. Como terei de continuar com a minha vida após esta "execução", o meu primeiro passo será demitir-me. Se essas condições de trabalho não tivessem sido denunciadas às autoridades competentes, os meus chefes nunca se teriam preocupado ou interessado pelo meu estado de gravidez. Só após essa inspecção, em que se confirmaram as tais faltas de condições, é que se dignaram a falar comigo e a me informarem sobre o que era realmente prejudicial e quais os trabalhos que eu deveria evitar. Algo com que nem a minha médica se preocupou em se informar. Recentemente, outra colega assumiu também a sua gravidez e informou o patrão de que o seu médico pedia informações sobre os produtos químicos com que trabalhamos, justificando que não achava que aquele fosse trabalho para uma mulher grávida. Essas informações foram-me também entregues e só apos isso é que a minha ginecologista se mostrou mais interessada. Isto, no Sábado passado, quando verificou que algo não estava bem com os ossos do meu bebé. Se a culpa é da minha idade, da genética ou dos produtos tóxicos com que trabalho, não sei. Por vezes, penso que fui eu que atraí este mal, ao pensar tanto nisto, nos meus medos e receios... tantas vezes que "pedi" para que o meu bebé fosse perfeitamente normal e saudável, mas penso que é normal pensar-se assim... É o que todas as mães desejam.


Finalmente o médico apareceu, rodeado de uma vasta equipa, disse que logo que terminasse a ronda, viria falar comigo. Já passou mais de uma hora, aproximando-se a hora do almoço, só já devemos conversar após as 14 horas. Eu só queria que isto terminasse e eu pudesse ir para casa, fechar-me no meu quarto e chorar enquanto me despeço do meu bebé. Andei a investigar, aqui na internet, as várias doenças ósseas que existem, talvez a tenha encontrado, visto que o seu perfil se encaixa naquilo que o medico me disse... displasia camptomelica. Se assim é, sem dúvida que tomei a decisão correcta. Apesar disso, a tristeza e agonia insistem em me torturar. Tinha tantos planos com o meu bebé... Só quero resolver esta situação e correr para junto da minha filha, a minha melhor amiga, o amor da minha vida. Este meu filho ficará sempre comigo, dentro de mim, do meu coração. Talvez a sua curta existência tivesse um propósito maior, que ainda não compreendo... mas acredito que em breve irei descobrir. Adeus meu anjinho...

Carla André

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