domingo, 10 de fevereiro de 2013

Há um mês nasceste...

Meu anjinho hoje é Domingo. Faz um mês que nasceste. Passaram 4 semanas desde que nos despedimos. Abandonaste o meu corpo, mas não me deixaste só... Vives no meu coração e aqui permanecerás, num cantinho só teu. Tenho saudades de ti meu amor, mas sei que estarás sempre comigo. Pertencemos um ao outro, és parte de mim e eu sou parte de ti. Serás sempre o meu bebé lindo, o meu menino. Hoje sei, melhor do que nunca, o verdadeiro significado do amor. Vieste me mostrar que viver é amar e sem amar não vale a pena viver. Mesmo que o amor rime constantemente com a dor, é preciso amar todos os dias. E eu vou tentar, meu anjinho. Vou tentar não esquecer que há mais quem mereça esse meu amor. Hoje, tenho plena consciência de que tenho sido negligente na minha forma de amar. E sei que tenho de mudar. Aos poucos vou entendendo melhor a tua missão. Vieste me ensinar o que mais me custa a aprender. Mas à medida que o tempo passa e me afasta de ti, mais me aproxima de mim. E em mim, tu existes. Porque foram apenas nossos corpos que se separaram, os nossos espíritos permanecem unidos, para todo o sempre. Amo-te muito meu anjinho. Serás para sempre meu amor.

Carla André

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A tua missão...

Meu anjinho, acredito que "descobri" qual era a tua missão... Foi por ela que viveste tão pouco tempo comigo. Tinhas de ser amado incondicionalmente, por mim. Foi essa a razão da tua vi(n)da. Acredito que sim. Só precisavas dessas 18 semanas para te libertares e atingires o mais elevado estado de pureza que nos é permitido, enquanto espíritos. Hoje "viverás" na tua forma mais pura e inocente. Só tinhas que te deixares amar, por mim. Já existias antes de eu te conceber, nos meus sonhos e desejos. Juntos vivemos momentos de amor, pura alegria e esperança. Foi para isso que vieste, que me procuraste, que me escolheste. Era esse o nosso destino. Eu tinha de te amar para te libertar. Só te faltava esse tempinho de "penitência". Todos nós buscamos essa liberdade. Todos nós temos esse mesmo destino. Eu fui a tua última missão e terei sido o teu caminho de luz, de volta a esse mundo. Foste também, a minha luz na escuridão, a minha estrela-guia... Hoje vejo coisas para as quais vivia cega. E aos poucos, vou vendo um pouco mais. A tua alma tocou a minha, uma última vez, para a purificar. Sinto que tenho ainda um longo caminho a percorrer, mas a tua passagem por mim não foi em vão. Sinto que, em mim, iniciaste o processo de libertação, para o qual eu não estaria ainda preparada. Mas começo a caminhar em frente e a acreditar. Não foste apenas meu filho, foste meu mentor, libertador... E serás sempre o meu anjinho. Sei que precisavas do meu amor, tal como eu precisava de te amar. Somos parte um do outro. Sempre fomos, sempre seremos. Talvez numa vida passada, o nosso amor tenha sido interrompido, corrompido por nós mesmos ou pelo próprio destino. E a vida nos deu a oportunidade de continuarmos esse amor, até tu te poderes libertar. Um dia também eu serei pura e inocente, como tu és agora. Um dia, todos nós fomos criados e iniciados dessa mesma forma... E soltos por este mundo fora, para conhecer a vida e descobrir o que significa viver e amar. Mas ao longo das nossas vidas, todos fomos corrompidos de algum modo. E tantas vidas temos nós que viver para voltar ao nosso estado inicial... E tu voltaste meu amor, sei que sim. Repousas junto com outros anjos, que tal como tu, viveram vidas e vidas até se libertarem. De nada nos vale ter nossas mentes e corações carregados de maus sentimentos. Quanto mais negra for a alma, mais vidas teremos que viver e reviver. Nesse processo que é a vida, existem almas que se perdem para sempre. Mas tu conseguiste meu anjinho. Encontraste o teu caminho, e eu fico feliz por te ter ajudado. Precisaste de mim e eu te agradeço, também tu me ajudaste, a subir mais um patamar. Apesar da dor e sofrimento que ficaram em mim, sei que fui importante para ti. Cumpriste a tua missão meu amor e eu estou muito orgulhosa de ti. Sei que um dia nos voltaremos a encontrar. Enquanto isso, viverei errando e tentando não errar, é essa a condição do ser humano. Viverei com a certeza de que estarás sempre a meu lado, olhando por mim. Amar-te-ei para sempre meu anjinho.

Carla André

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A minha história...


Perdi o meu filho, à 21 dias. Estava grávida de 18 semanas (clinicamente 20 semanas). Tenho escrito muito sobre o que sinto, e isso têm-me ajudado a aliviar o meu sofrimento. Aos poucos a dor vai-se atenuando, mas nunca me abandona por completo. A cada dia que passa, vou sentindo que tomei a decisão certa... Vou aceitando a minha perda. O meu bebé era muito doente. Não seria justo para nenhum de nós, trazê-lo ao mundo, para sofrer. O médico nunca me deu qualquer esperança, ele poderia morrer dentro de mim, ao nascimento ou algumas horas após. O que ele tinha, ao certo, ainda não sei. No final de Fevereiro saberei, ou não, quando me for entregue o resultado dos exames e autópsia. Sei apenas que era uma doença óssea grave. As fotos do meu bebé confirmam, graves deformações nos braços e perninhas do meu anjinho. O médico falou em doença genética... Esperarei pelo seu diagnóstico. Há pouco mais de 15 anos fui mãe de uma menina. Tinha eu 20 anos, era demasiado jovem para ser mãe. Como tal, sentia-me contrariada e revoltada. Confesso que pensei em abortar. Felizmente, não o fiz, não tive essa coragem. Hoje tenho nela a minha melhor amiga, o meu grande amor. Assumi a minha gravidez e abdiquei de todos os meus sonhos e projectos, para a criar e amar. Não foi fácil, existiam tantos "ses" em meus pensamentos. E existia um forte ressentimento contra a minha filha, algo que eu não conseguia controlar, mas que nunca me impediu de cuidar dela, como ela merecia. E eu sabia que ela era uma criança feliz. Esforcei-me por ser uma boa mãe, apesar dos apesares. E cresci com ela. Tornámo-nos amigas, companheiras... Superámos juntas todos os obstáculos que a vida insistiu em colocar no nosso caminho. Mas eu sempre senti, que apesar de ter sido uma boa mãe, que poderia ter sido ainda melhor. Vivi muito à pressa a sua infância, não desfrutei a 100% todos os momentos, deveria ter sido melhor mãe. Quando voltei a engravidar, 15 anos depois, julguei que seria esta a minha oportunidade de voltar a amar assim alguém, agora com menos pressa, com mais prazer. Mas o destino não o permitiu. Castigo? Talvez... Há 15 anos pensei em abortar um bebé saudável e agora que desejava tanto este, tive de abortar devido à falta de saúde. Não sei... Não compreendo. Martirizo-me com este pensamento. Eu que finalmente estava mais que preparada para ser mãe de novo, com tanto amor para dar, perdi o meu menino... Não é justo. Não existem palavras no mundo que descrevam esta dor imensa. Não foi uma gravidez planeada mas também não evitada. Vivia momentos de incerteza dentro da minha relação, muitos altos e baixos... Mas a única certeza que eu tinha, é que gostava muito de voltar a ser mãe, ter algo meu e do meu companheiro, um filho do homem que amo. E tive, ainda que por pouco tempo... E terei, teremos para sempre. Apesar de tudo, no final de Setembro descobri que estava grávida. Não fiquei logo feliz, senti uma aflição no meu peito. Desde meados do mês que sentia fortes dores no baixo-ventre e rins. Dores que foram se intensificando a cada dia que passava, assemelhando-se às contracções de um trabalho de parto. No inicio, pensei que a menstruação desse mês seria bastante dolorosa (como acontecera em outros meses), e as dores só passariam quando ela chegasse... Afinal estava mesmo grávida, quando julguei que já não seria possível. Fomos ao hospital, onde se confirmou a gravidez e sendo o nosso receio, a hipótese de uma gravidez ectópica, fizeram-me outras análises que tive de repetir dois dias depois. Disseram-me que estava tudo bem, que apesar de o embrião ser ainda invisível, estaria bem instalado no meu útero. Quanto às dores, não me souberam diagnosticar, em mim seriam normais... Aconselharam-me a consultar a minha ginecologista. O meu maior receio naquele momento, era o facto de trabalhar com produtos químicos, em contacto com gases altamente tóxicos, numa fábrica sem condições, sem qualquer tipo de ventilação e sem uso de máscaras próprias para aquele género de trabalho. Facto a que nem o médico do hospital nem a minha ginecologista deram importância. Apenas o meu médico de família se interessou pelo caso, prevenindo-me de que se o meu corpo estava a reagir dessa forma à gravidez é porque talvez o meu bebé já estivesse intoxicado e o meu organismo o quisesse expulsar. Ele disse que muitas vezes quando o nosso corpo detecta essas malformações nas células que se estão formando, a sua resposta, é o aborto espontâneo. Falou que o melhor seria denunciar as condições na fábrica onde eu trabalhava. Foi assim que se confirmou a falta de condições no meu local de trabalho. E eu só pensava para mim "se calhar o mal já está feito, se calhar o meu bebé já está doente". Só após essa inspecção, é que os meus patrões se dignaram a vir falar comigo e a informarem-me de quais eram os químicos realmente tóxicos para o meu embrião e quais os trabalhos que eu deveria evitar. E só em Novembro me deram uma máscara própria para usar. Enquanto isso, as dores foram-se atenuando, sentia-as todos os dias, mas cada vez mais fracas. Como a médica-ginecologista, nunca se mostrou preocupada, comecei a descontrair e a desfrutar da minha gravidez. Com um inicio de gravidez tão conturbado, eu tinha tentado não me afeiçoar ao meu "feijãozinho", mas agora tudo parecia mais normal. E deixei-me levar ao sabor do amor... Mas a minha preocupação mantinha-me, sempre alerta, porque eu achava que as dores que sentia não eram, de facto, normais. Eu amava o meu bebé, mas sentia-me angustiada, algo em mim me avisava que ele não estava bem. Tentei ignorar essa voz que me falava todos os dias para me preparar... Quando fui à consulta das 12 semanas (clinicamente falando, porque eu estaria de 10), a ginecologista disse que estava tudo bem e que portanto só precisava de voltar dali a 6 semanas, dia 5 de Janeiro de 2013. Saí do consultório tão feliz, que rumei ao shopping mais próximo para presentear o meu bebé com alguma roupinha... Finalmente, me senti mais aliviada. Mas a tal voz nunca me abandonou. Eu desprezei-a totalmente e decidi amar o meu bebé como ele merecia. E sonhava, como ele seria, com os momentos que iriamos partilhar, com todo o amor que eu tinha para lhe dar. Estava tão feliz! E sentia que ia ser um menino, o meu menino. Dia 5 de Janeiro chegou, sentia-me nervosa e muito ansiosa. Adoeci dois dias antes, sentia-me estranha... receosa. Antes de entrar no consultório, tremia. Percebi que algo não estava bem, mas quis ignorar o que sentia. Quando, finalmente, a médica iniciou a ecografia, o meu coração bateu mais forte... Senti a sua apreensão. Ela media e media, repetia e repetia, demorava e demorava. O meu coração encolheu-se no meu peito. Finalmente, ela demonstrou um pouco mais de calor no meio da sua tipica frieza. Estava preocupada. Disse que o meu bebé parecia ter os ossos das pernas muito curtos. Marcou-nos uma consulta com um outro especialista. Apartir desse dia, as lágrimas foram minha companhia. O meu bebé estava doente, e eu já há muito que sabia... Tinha consulta, no hospital, no dia 8 de Janeiro, Terça-feira, às 13 horas. Entrei na madrugada desse mesmo dia, nesse mesmo hospital, com uma hemorragia. Observaram-me, fizeram nova ecografia e não detectaram o problema. Fiquei internada para observação. Às 13 horas e 30 minutos, fui atendida pelo médico, simpático e atencioso. Fez-me a ecografia "especial" e foi conversando comigo, não demonstrando qualquer tipo de emoção. Senti-me mais aliviada, "talvez não seja nada" pensei eu. Acabando o exame, disse-me que tinha uma reunião de seguida e, que portanto, só depois poderia falar comigo e apresentar-me o resultado da ecografia. Fiquei de novo alerta, ele talvez para me acalmar, ofereceu-me uma "foto" do rosto do meu bebé. Fiquei fascinada, conseguia ver os olhinhos, a boquinha e o lindo narizinho. Ao fim de duas horas o médico pediu para falar comigo e de uma forma bastante penosa me informou que o meu bebé tinha graves problemas, indicando uma grave doença óssea. As lágrimas saltaram-me dos olhos e uma dor imensa invadiu todo o meu corpo, apertando o meu coração. Perguntei-lhe se podíamos fazer alguma coisa, e ele respondeu que não. Cada vez que me lembro desse momento, a dor volta com a mesma intensidade. Como é possível uma mãe ter de sofrer assim? Continuámos a falar, mas eu só queria fugir, para longe daquele pesadelo, daquela minha realidade. Ele queria fazer mais exames, inclusivé, a amniocentese. Falei-lhe no aborto. Ele aconselhou-me a esperar um pouco mais, ou até mesmo a avançar com a gravidez, visto que muitas vezes, só ao fim dos nove meses de gestação se pode diagnosticar melhor a doença. Concordei apenas com a amniocentese, o que me obrigaria a esperar mais um mês. O médico "convenceu-me" ao dizer que os riscos de fazer o aborto agora ou depois seriam os mesmos para mim. Fui para o quarto lavada em lágrimas... Afinal, tudo o que eu sentia desde o inicio, era verdade, o meu bebé estava condenado. Sozinha, pensando de mim para mim, cheguei à conclusão que o ficar à espera mais um mês, só me faria pior emocionalmente. O médico tinha-me garantido que não havia esperanças para o meu bebé. Apenas queria estudar o meu caso, afinal, eles antes de serem médicos, são cientistas. O meu companheiro veio ter comigo ao hospital, depois do trabalho, e decidimos então que não valia a pena esperar, íamos abortar. No dia seguinte, informei o médico, que ficou desiludido comigo e me disse que apesar da doença, aquela vida pertencia ao meu bebé... Respondi-lhe que não era justo, nem para mim nem para o meu bebé, trazê-lo a este mundo para sofrer... Era eu que tinha de decidir. Visto que a amniocentese não iria nunca mudar o estado de saúde do meu bebé, eu tinha de abortar e não podia esperar. Eu só queria que aquele triste sonho acabasse e ir para casa... Para os braços da minha filha e do homem que amo. Ele explicou-me então como seria todo o procedimento: primeiro tinha de conversar com uma psiquiatra que atestaria se eu estava em condições psicológicas de tomar aquela decisão. No dia seguinte, tomaria três comprimidos que iriam preparar o meu corpo para a expulsão do meu bebé. Depois, iria para casa dois dias e, voltaria ao hospital, onde me aplicariam um ou dois comprimidos, via vaginal, para induzir o trabalho de parto. No final, perguntei-lhe se o meu bebé iria sofrer, ele respondeu que os cientistas crêem que neste tempo de vida, os bebés não sentem qualquer dor... Eu quis acreditar, mas o facto de ele não me olhar nos olhos ao falar-me, deixou-me na dúvida. Mas tentei acreditar na mesma, o meu bebé não podia sofrer, e certamente não teria passado por esta vida para saber o que é o sofrimento. E era a isso, que eu o iria poupar. Foi a semana mais triste de toda a minha vida. Nunca pensei sentir dor igual. Que angústia, que agonia. Sexta-feira dia 11 de Janeiro tomei os 3 comprimidos. Antes disso, e devido às dores que eu sentira na noite anterior, o médico fez-me outra ecografia, a placenta já se começara a descolar... Para mim era um sinal, sinal de que este era já o fim destinado ao meu bebé. Voltei para casa. Passei o tempo a chorar. Sábado senti a necessidade de me despedir do meu bebé, enquanto ele ainda vivia dentro de mim. Escrevi-lhe uma carta, dizendo tudo o que sentia, e pedindo-lhe desculpa... Assim me despedi dele, prometendo amá-lo sempre e para sempre. No Domingo voltei ao hospital, fui internada às 10 horas, o meu bebé "nasceu" às 19 horas do dia 13 de Janeiro de 2013. O meu dia mais infeliz... Quando o seu corpo abandonou o meu, algo em mim se perdeu, algo meu morreu... E eu chorei como nunca tinha chorado. Como será possível alguém sofrer assim? Eu amava tanto o meu anjinho e fui obrigada a enviá-lo de volta ao seu mundo. Após o seu "nascimento" a enfermeira cuidou dele com muito carinho, como se ele fosse vivo... Perguntou se eu o queria ver, mas fui incapaz. No final, ofereceu-me umas fotos dele, que só fui capaz de ver no passado Domingo. Estava tão doente o meu menino... Porque a mãe-natureza permitiu tal coisa? Chorei tanto depois de ver as fotografias do meu anjinho... Ele não merecia. Ele merecia ser feliz comigo... E talvez o tenha sido. Eu amei-o, e amo, tanto. Ele sentiu o amor que eu tinha por ele... E foi por isso, que no final, não me importei de o acompanhar até ao fim da sua viagem, mesmo com toda a dor física que senti. Porque ele merecia que eu estivesse a seu lado. E a dor física não era nada, em relação à dor que eu sentia na minha alma, ao entregá-lo de volta ao mundo, puro e inocente, onde os anjos repousam e olham pela gente. Hoje, sinto que foi nesse momento, que os nossos corpos se separaram e as nossas almas se uniram para todo o sempre.

Carla André





Antes do aborto...


10 de Janeiro de 2013


Estou no hospital à espera que o médico me diga quando iniciaremos o procedimento, a expulsão do meu bebé... Estou grávida de 17 semanas (clinicamente 19). Imagino que o pior ainda esteja para vir, mas este tempo de espera corrói-me por dentro. Quem me dera que o meu bebé fosse saudável e eu não tivesse que o tirar de dentro de mim. Mas a realidade é outra... No Sábado a minha médica viu que algo não estava bem e encaminhou-me para esta clinica. Terça um médico especializado efectuou a ecografia que veio a confirmar que o meu bebé não é nem nunca será saudável. Ao certo não soube explicar, só me disse que tem graves problemas a nível ósseo (esqueleto) e que precisava de mais tempo para diagnosticar a doença. De qualquer forma, não me deu qualquer esperança, ao dizer que tudo o que via eram indícios de graves doenças, e que não podia fazer nada pelo meu bebé. Falou na hipótese de ele poder morrer durante a gestação, após o parto ou mesmo sobrevivendo, que teria pouco tempo de vida. Mas tudo isso seria, será, uma incógnita. Ainda assim, apesar de compreender a minha decisão, tentou convencer-me a não abortar. Aqui na Suíça, a mentalidade é outra... Aconselhou-me a fazer a amniocentese, esperar os resultados e fazer mais análises e outra ecografia, para ele tentar compreender melhor a doença. Após isso, poderia abortar na mesma se assim o desejasse. Aliás, ao que entendi, o ideal para ele seria eu levar a gravidez avante, porque só nessa altura, ele poderia diagnosticar realmente a doença do meu bebé. Eu pensei para mim "ele é médico, mas é em primeiro lugar um cientista... é normal que me incentive a continuar a gestação, para continuar a sua investigação cientifica". Por outro lado, falou-me que era uma vida que estava dentro de mim (eu que sei isso melhor do que ele), uma vida que tem direito a viver... ao que eu respondi que tipo de vida teria este bebé se sobrevivesse? Óbvio que não me soube responder, apenas me soube dizer que muita gente opta por ter os seus bebés apesar das doenças e deficiências. Eu apenas lhe disse que isso não seria justo para mim e para o bebé, eu nunca iria trazer ao mundo uma criança para sofrer, ou para servir de cobaia a uma equipa de cientistas e médicos. Apesar de sentir que ele compreende a minha decisão, não senti apoio da sua parte. E enquanto espero, vou-me despedindo do meu bebé e ao mesmo tempo tentando ignorá-lo, para evitar maior sofrimento, mas é impossível, e só quem passou por este momento de angústia é que me consegue compreender. Pelo que percebi, eles vão tentar que o procedimento seja o menos doloroso para o bebé (será isso possível?) e para mim, óbvio. Ainda irei para casa com ele este fim de semana (ele, um menino)... mas este tempo de espera mata-me, pensei que seria mais rápido. Tomarei 3 comprimidos e irei para casa por 2 dias, o tempo para o meu organismo se preparar, depois virei para a clinica onde me darão um ultimo comprimido, que supostamente, induzirá o aborto/parto... só espero que me ponham a dormir, não quero essa triste recordação. Tudo isto e já tao doloroso, não preciso de recordar esse momento, já ficarei marcada por esta dor para sempre. Só preciso que isto acabe rápido para eu poder voltar para casa e tentar "esquecer" tudo. Voltar, aos poucos, à minha vida, à minha filha que adoro, ao homem que amo. Quanto ao meu bebé, acredito que seja um anjinho que teria a sua missão e que talvez já a tenha cumprido. Talvez a sua missão fosse eu, e eu só a compreenderei mais tarde... Porque finalmente, apesar de todos os sinais (o mal-estar e dores que eu sabia não serem normais), resolvi ter esperança em algo, afinal algo sem esperança. Não sei como irei superar isto, mas sei que o farei e sei que este bebé ira ser recebido no lugar onde os anjos repousam.


Continuo à espera que o médico me informe de quando iniciaremos o procedimento. Sinto que uma parte de mim morre lentamente... e na verdade, morrerá em breve. Sinto que tomei a decisão certa, mas nem por isso deixa de ser dolorosa. E é por isso que eu não posso, não devo esperar muito mais, dói muito senti-lo dentro de mim sabendo que nunca o irei ter nos meus braços. Prefiro chorar agora do que chorar mais tarde por não ter tomado esta decisão. O médico tem a certeza que ele não é normal nem saudável, só não consegue identificar ainda a doença. Porque hei-de eu esperar mais tempo, fazer mais exames, se nada disso mudará o estado de saúde do meu bebé? Mais tempo trará mais dor e sofrimento. Agora só quero acordar deste pesadelo... foi um lindo sonho, mas acabou.


"E se..." existirá sempre, mas eu acredito no médico. A minha médica viu algo de errado nos ossos das pernitas, a médica que me observou na madrugada de terça-feira viu o mesmo. Tinha o exame marcado para as 13 horas mas tive de vir às urgências porque comecei com uma hemorragia, nessa madrugada, que ainda não parou e os médicos não sabem de onde vem. O médico às 13 horas e 30 fez-me a tal ecografia "especial" que detectou os restantes problemas, graves problemas. Ele disse que até mesmo os sintomas que tenho (dores fortíssimas e mal-estar geral) desde o inicio da gravidez, são indicativos de que algo não estava bem. Já o meu medico de família me tinha "avisado" disso, mas como ainda era cedo para detectar algo e a minha ginecologista não se mostrou preocupada, apesar de dizer que as minhas dores não eram normais... eu mantive sempre a esperança de que estaria tudo bem com o meu bebé. O facto é que eu acredito no médico, a medicina evoluiu bastante nos últimos anos e ele próprio quis ser sincero e não me dar falsas esperanças quanto à saúde do meu bebé. Eu acredito, porque desde o inicio que sentia que algo estava errado com o meu bebé e os factores à minha volta mais me "ajudavam" a recear... tenho 36 anos, tenho uma deformação acentuada no útero, trabalho com químicos altamente tóxicos, e afinal o meu companheiro tem, na família, casos de doenças nos ossos. As dores continuam, por vezes mais fortes, e a hemorragia, apesar de ser mais fraca, também. Pergunto-me porque é que a natureza não me ajuda então, em vez de termos de forçar o aborto. Tudo isto, para mim, é um sinal que está na hora de nos separarmos. E não digo isto porque o deseje, mas porque começo a aceitar que tem mesmo de ser. Apenas me resigno à realidade. O meu desejo é que o meu bebé fosse saudável e que não tivéssemos de passar por isto. Mas não há nada a fazer quanto a isso. A única coisa que posso fazer é evitar a nossa infelicidade e de quem nos rodeia... 

Carla André


À espera...


11 de Janeiro de 2013

Continuo à espera... À espera que o médico se digne a vir falar comigo... porque é que prolongam o meu sofrimento? Sendo já um momento tão penoso, porque não me ajudam a "aliviar" esta dor que me rasga por dentro? Porquê esta tortura cruel? Não chega eu descobrir que o meu bebé é doente e ter de decidir pôr um fim a sua vida? Haverá sofrimento maior? Nunca perdi ninguém na vida, que eu amasse... mas não imagino que haja maior perda que a de um filho. É uma parte de nós que morre e que dói para sempre. Apesar dele só existir à quase 18 semanas, dentro de mim, amo-o como se já fizesse parte da minha vida à muito muito tempo. Esse amor nasce dentro de nós e vai crescendo à medida que o bebé se vai desenvolvendo. A ligação entre nós se fortalece a cada dia que passa. Não é justo passar por isto. Se algo não estava bem, porque é que a natureza não se encarregou da situação? Seria melhor assim... Eu sentia que algo não estava bem. Mesmo antes de descobrir que estava grávida, as dores intensas que eu sentia, como se estivesse em trabalho de parto, não eram normais. Esperei pela menstruação que não veio e fiz teste, estava grávida. Não fiquei feliz porque receei imediatamente que algo não estivesse bem. Podia estar para abortar ou ser uma gravidez ectópica... dirigi-me às urgências que me enviaram para esta mesma clinica. Não perceberam o porquê das dores, o embrião era "invisível", mas através de análises ao sangue disseram-me que não era gravidez ectópica. Para confirmar, marcaram novas analises para 2 dias depois. Estava tudo bem. Aconselharam-me a marcar consulta na minha ginecologista, assim o fiz. Mas eu não estava descansada e as dores continuaram por mais 2 semanas. Após esse tempo, acalmaram mas continuaram sempre, no baixo-ventre e rins. A minha maior preocupação era o facto de trabalhar com produtos químicos e tóxicos, numa fábrica mal ventilada, sem máscara própria... facto que foi ignorado, tanto pelo médico que me atendeu nas urgências desta clinica, assim como, pela minha ginecologista. Hoje penso se esse factor não terá também tido influência no estado de saúde do meu bebé. Como terei de continuar com a minha vida após esta "execução", o meu primeiro passo será demitir-me. Se essas condições de trabalho não tivessem sido denunciadas às autoridades competentes, os meus chefes nunca se teriam preocupado ou interessado pelo meu estado de gravidez. Só após essa inspecção, em que se confirmaram as tais faltas de condições, é que se dignaram a falar comigo e a me informarem sobre o que era realmente prejudicial e quais os trabalhos que eu deveria evitar. Algo com que nem a minha médica se preocupou em se informar. Recentemente, outra colega assumiu também a sua gravidez e informou o patrão de que o seu médico pedia informações sobre os produtos químicos com que trabalhamos, justificando que não achava que aquele fosse trabalho para uma mulher grávida. Essas informações foram-me também entregues e só apos isso é que a minha ginecologista se mostrou mais interessada. Isto, no Sábado passado, quando verificou que algo não estava bem com os ossos do meu bebé. Se a culpa é da minha idade, da genética ou dos produtos tóxicos com que trabalho, não sei. Por vezes, penso que fui eu que atraí este mal, ao pensar tanto nisto, nos meus medos e receios... tantas vezes que "pedi" para que o meu bebé fosse perfeitamente normal e saudável, mas penso que é normal pensar-se assim... É o que todas as mães desejam.


Finalmente o médico apareceu, rodeado de uma vasta equipa, disse que logo que terminasse a ronda, viria falar comigo. Já passou mais de uma hora, aproximando-se a hora do almoço, só já devemos conversar após as 14 horas. Eu só queria que isto terminasse e eu pudesse ir para casa, fechar-me no meu quarto e chorar enquanto me despeço do meu bebé. Andei a investigar, aqui na internet, as várias doenças ósseas que existem, talvez a tenha encontrado, visto que o seu perfil se encaixa naquilo que o medico me disse... displasia camptomelica. Se assim é, sem dúvida que tomei a decisão correcta. Apesar disso, a tristeza e agonia insistem em me torturar. Tinha tantos planos com o meu bebé... Só quero resolver esta situação e correr para junto da minha filha, a minha melhor amiga, o amor da minha vida. Este meu filho ficará sempre comigo, dentro de mim, do meu coração. Talvez a sua curta existência tivesse um propósito maior, que ainda não compreendo... mas acredito que em breve irei descobrir. Adeus meu anjinho...

Carla André

Adeus meu anjinho...


12 de Janeiro de 2013 

Preciso de me despedir de ti, meu amor... Enquanto ainda vives dentro de mim. É tão doloroso ter de tomar uma decisão destas, dói tanto ter de te expulsar do meu ventre, do teu ninho. Desculpa meu amor... Não percebo porque isto nos aconteceu. Eu estava tão feliz e tinha já tantos planos para nós. Eu tinha tanto medo que não estivesses bem, mas mantive sempre a esperança em ti. Pensei que a vida finalmente me deixasse ser feliz. Doeu tanto ouvir aquelas palavras... que tu eras doente e que o médico não podia fazer nada por ti. Eu não queria acreditar, mas algo em mim sempre me disse que tu não estavas bem. E é por isso que eu não te posso trazer ao mundo, só irias sofrer. E eu ia sofrer por não ter tido a coragem de tomar esta decisão e poupar-te ao sofrimento. Desculpa meu bebé... eu não acredito que a tua vinda tenha sido em vão. Acredito que tudo tem um porquê, uma razão. Vieste numa missão e agora tens de voltar. Neste momento, não consigo entender, mas sei que um dia só terei que te agradecer. Tenho de acreditar que assim será. Não foi por qualquer motivo que apareceste na minha vida. Talvez sejas uma lição que eu deva aprender, mas agora não sou capaz... agora sofro demais por ter de te enviar de volta ao teu mundo, o lugar onde os anjos repousam e olham por nós. Amo-te meu bebé, apesar de só viveres comigo à 18 semanas. Amo-te como se vivesses comigo desde sempre. E acredita que viverás sempre comigo, no meu coração.

Esta será a nossa última noite juntos... Amanhã já nos iremos separar. Não sei o que farei sem ti. Incrível, em como em tão pouco tempo um amor cresce, como o meu cresceu por ti. Eu devia começar a tentar o desapego para não sofrer tanto, mas penso que é impossível e acredito que devo mesmo sofrer pela tua perda, sem "camuflagem", para depois conseguir seguir em frente. Após receber a maldita noticia, tentei fazê-lo, tu sabes... tentei ignorar-te. Mas porque o devo fazer, se ainda vives dentro de mim? Porque te havia de ignorar se ainda estás vivo, se ainda estás comigo? Não, resolvi continuar a falar contigo, a mimar-te como fazia antes, porque tu mereces. Não tenho de te desprezar, nem desprezar os meus sentimentos. Tenho de continuar a amar-te enquanto aqui estás comigo... Na verdade, nunca deixarei de te amar, meu amor, meu anjinho, meu bebé lindo. Treino o desapego depois, depois quando te entregar de volta ao teu mundo. Um mundo melhor, em paz, sem dor nem sofrimento. Vou acreditar nisso, meu amor. Eu irei sofrer todos os dias, um bocadinho, até restarem apenas vestígios dessa dor. Se eu não me permitir a tal, irá doer muito mais e as marcas serão mais profundas. Eu sei que tu queres que eu seja feliz, e serei... farei isso por ti. Talvez fosse essa a tua missão, só pensei que ficarias comigo, para sermos felizes juntos. Prometo que vou tentar ser um pouco melhor todos os dias... Por ti, pelas pessoas que amo. A tua vi(n)da não foi em vão, meu amor. Por muito que me doa, sei que vieste ensinar-me algo muito precioso... penso que aos poucos irei desvendar a razão da tua passagem pela minha vida. Só queria que tivesses ficado e te tivesses tornado no bebé lindo que eu tinha imaginado... a criança, o adolescente, o adulto, que eu teria amado. Agradeço-te por me teres dado o prazer de ser tua mãe, ainda que por breves momentos. Fui tão feliz! Eu não sabia que era assim... quando engravidei da tua mana, era muito nova. Era uma mãe revoltada, contrariada. Era demasiado jovem para sentir este prazer. Claro que a amava, mas sentia-me infeliz, não estava preparada para ser mãe. No entanto, sei que fui, que sou uma boa mãe. Quando vieste, 15 anos depois da tua irmã, já eu estava mais que preparada para te receber... ia ser a tua melhor mãe do mundo. Mas não foi esse o nosso destino e amanhã nos iremos separar. Tu sabes que não foi fácil a minha decisão, quem me dera que a natureza o tivesse feito por mim. O médico foi sincero quanto ao teu estado de saúde, não seria justo para nenhum de nós, trazer-te ao mundo... não seria esse o teu propósito. Tu sabes o quanto eu estou a sofrer, não te queria perder. Tinha tantos sonhos com o meu menino lindo... Tu sabes, vives dentro de mim, sentiste certamente todo o amor que sinto por ti. Agora tenho de te deixar partir e, aos poucos, mandar a minha dor embora. Amo-te, meu anjinho, ficarás para sempre dentro de mim, do meu coração.

Carla André

Meu Amor...


13 de Janeiro de 2013 

O meu anjinho voltou para o seu mundo... "Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." ♥

Um amor que nasceu e cresceu dentro de mim... Um amor que não se concretizou... Viveste apenas 18 semanas no meu ventre, mas tornaste-te eterno... Vou-te amar para sempre meu anjinho ♥


Carla André

Não entendo...


17 de Janeiro de 2013

Não entendo porque estas coisas acontecem... Mulheres que desejam imenso serem mães e não conseguem engravidar, mães que amam seus filhos ainda no seu ventre e os perdem, mães que têm seus filhos nos braços quando o sopro da vida os abandona... E existem outras mães capazes de matar seus filhos recém-nascidos ou não, sem percebermos porquê. Porquê? Decididamente, a vida não é justa. Quem me dera que o meu bebé estivesse bem para eu não ter de tomar esta decisão. Quem me dera que os meus desejos se tivessem concretizado e ele fosse perfeitamente normal e saudável. Mas o destino não deixou que assim fosse e eu tive de expulsá-lo do meu corpo e deixá-lo partir. Muitas mães sabem a sensação que é, o sentimento que fica após semelhante acto. A vida foi madrasta... Porque é que não deu a oportunidade ao meu menino de se tornar um ser humano feliz? Não, obrigou-me a decidir o que fazer com a vida dele. Uma vida que, segundo o médico, poderia nem sequer chegar a nascer, morrer após o nascimento, ou sobreviver pouco tempo, mas em sofrimento. Terá sido a minha decisão um acto de misericórdia? Se assim foi, porque tem que magoar tanto? Ficou tanto amor dentro de mim, para lhe dar... e ele merecia tanto este meu amor. Ainda falo com ele, como se ainda vivesse dentro de mim. Tenho saudades dos sonhos que construía para ele, para nós, todos os dias. Sinto falta da sua presença em mim. Éramos um só e ficaríamos (e ficámos) unidos para sempre. Sei que fiz o que estava certo, mas foi e é demasiado angustiante e doloroso. Neste momento, a escuridão da vida envolve-me, ao me ter obrigado a abdicar da luz que era o meu anjinho.

Carla André

Desabafo...


17 de Janeiro de 2013

Preciso de desabafar a minha dor... por isso vou enchendo páginas e páginas, tentando aliviar este meu sofrimento. Nenhuma mulher deveria passar por tamanha agonia. Perder um filho é o que há de mais doloroso na vida de alguém. Sempre pensei assim, hoje sei-o... Quando tomei a decisão de abortar, sem dúvida que foi o instante mais doloroso vivido até ao momento. Mas quando, finalmente senti o meu bebé a ser expulso do meu corpo, esse sim, foi o momento mais infeliz da minha vida. Que tristeza tão sem medida... tristeza essa que, desde então, possui todo o meu corpo, toda a minha alma. Tristeza que agora não me abandona um momento sequer, deixando-me despojada de mim mesma. O meu bebé de 18 semaninhas "vive" longe de mim, para sempre. Quando me explicaram como seria o aborto induzido, eu fiquei muito assustada. Ia passar por um parto, sem no final ter o meu filho nos braços... só pensava em minimizar a minha dor física e psicológica. Mas hoje sei que foi o melhor para mim e para o meu anjinho. Hoje compreendo o porquê de induzirem o parto. É o respeito pela vida, a vida humana. Ele merecia nascer como qualquer outro bebé, apesar daquele momento, ser o fim da sua viagem. E eu precisava também, de passar com ele, por esse momento. Foi, naquele instante, que os nossos corpos se separaram e que as nossas almas se uniram. Naquele quarto de hospital, cuidaram bem do meu menino, como se ele tivesse nascido "normal e perfeito"... como se ainda fosse vivo. Foram carinhosos e atenciosos. Queriam que eu olhasse para ele, pela primeira e ultima vez, mas fui incapaz. E então tiraram-lhe fotografias, colocaram-lhe um pequeno gorro e umas luvinhas, talvez para disfarçar as suas "imperfeições", e no final ofereceram-me-os, junto com a mantinha onde o envolveram com tanto cuidado, quando o levaram para longe de mim. Foi enternecedora a forma como cuidaram do meu menino. Também me foi oferecido um postal com os dados do seu nascimento e a marca dos seus pézinhos. Uma marca de que ele passou por esta vida. Quem me dera que ele tivesse tido a oportunidade de nascer em Junho de boa saúde e levar logo todos aqueles carinhos e miminhos... carinhos e miminhos que também eu lhe daria mal me o colocassem nos braços. Mas isso agora é apenas um lindo sonho que eu tive, e que teve um final infeliz. Ainda não fui capaz de ver as fotos, tenho medo do que mais irei sentir. Tenho o quarto, que seria dele, enfeitado com anjinhos e velas, para o homenagear todos os dias. Falo com ele como falava dantes, quando ele ainda vivia no meu ventre, e sinto falta da minha barriguinha, tenho saudades dos seus pequenos e suaves movimentos. Sempre acreditei que iriamos ficar juntos para sempre e tentei a todo o custo ignorar a sensação de que algo não estava bem com a minha gravidez. Hoje sei, que se pudesse, tentaria de novo... não para o substituir, porque ele foi único, mas porque o meu peito ficou a transbordar de um amor infinito, capaz de me consumir até à extinção.

Carla André

Era uma vez...


18 de Janeiro de 2013

Era uma vez um coração que vivia e batia, porque é o que um coração faz. Não era feliz nem infeliz. Ele amava, em especial, dois outros corações. Mas muitas vezes, sentia um vazio dentro de si. Existia um cantinho, um espaço por preencher. Ele desejava secretamente um novo coração que o fizesse bater, novamente, de alegria. Um dia algo aconteceu... o corpo que o envolvia começava a gerar uma nova vida. Aos poucos, um novo coraçãozinho surgia. O coração bateu de felicidade, tinha nova companhia. Mas veio a mãe-natureza que o preveniu, algo não estava bem com o invólucro do seu pequeno coração. O coração não quis saber, ignorou, estava tão feliz! Um novo amor começava a crescer dentro de si, preenchendo aos poucos, o espaço vazio que tanto lhe doía. E os dois batiam felizes por estarem juntos, por se poderem amar livremente. O coração, por vezes, pensava no que a mãe-natureza lhe tinha dito, mas logo tentava esquecer. Como seria possível que algo viesse acabar com tanto amor? E o amor crescia a cada dia. Era lindo voltar a amar assim! O coraçãozinho sentia-se agradecido por ser tão bem amado. Valia a pena viver ali. Por sua vez, o coração sentia medo, mas não conseguia parar de amar. Sentia um prazer imenso em poder amar incondicionalmente um outro coração. Um dia, a mãe-natureza voltou e a razão falou... Ela disse ao coração que a mãe-natureza não tinha levado o coraçãozinho mais cedo, porque o coração lhe pedira, mesmo sem palavras, que ela não o fizesse. O coração vivia tão sedento de amor, que a mãe-natureza prolongou-lhe aquele momento. Foram semanas de puro amor. A razão observara tudo, mas mantivera-se longe, respeitara os sentimentos do seu amigo coração. E soubera sempre que ele iria sofrer, mais cedo ou mais tarde. Chegado o momento, conversou com ele. A mãe-natureza esperava e sabia que agora precisaria de ajuda, não ia conseguir separá-los sózinha. Então, a razão disse ao coração que ele sabia, que no fundo sempre soubera, que aquele dia ia chegar. E que ele sabia que era o mais certo a fazer, o corpo que envolvia o pequeno coração, estava doente e não havia outra solução. O coração chorou, uma dor imensa o trespassou e ele sangrou de tanta agonia. Como era possível? Porquê deixá-los amarem-se tanto, se aquele amor estava condenado ao fim? A razão respondeu que esse amor seria eterno e que um dia ele iria compreender. O coração chorou e gritou mais alto, bateu com toda a sua força, revoltado... Mas acima de tudo, infeliz. O pequeno coraçãozinho sentia-se resignado, já tinha aceite o seu destino. Só o coração se debatia contra a mãe-natureza e a razão. Porquê fazerem-no sofrer tanto? Que iria ser do seu coraçãozinho? E que faria ele com tanto amor que transbordava de si mesmo? A razão por muito que tentasse, não conseguia acalmá-lo. Tentou fazê-lo ver que se o pequeno coração continuasse junto dele, ambos iriam sofrer mais e mais tarde. E que, possivelmente, o sofrimento seria maior. Era chegada a hora da separação. O coração chorou todos os dias e, para se proteger, tentou ignorar e desprezar o seu coraçãozinho. Mas era impossível e inaceitável. A razão incentivou-o a amá-lo uma vez mais. E o coração amou. Acarinhou o seu pequenino, conversou com ele, mimou-o como tantas vezes o fizera. Despedia-se, a cada batimento, a cada pulsação. Sentia-se muito infeliz e perguntava-se, o que teria feito de errado... Porque é que o seu coraçãozinho não podia viver e ficar com ele para sempre? E a razão sussurrava "mas ficará...". O coração começou a acreditar, a ter fé, de que o seu pequenino estaria sempre com ele, mas que tinha de partir, para não sofrer. Encheu-se de coragem e falou com a mãe-natureza, pediu-lhe para que ela não magoasse o seu coraçãozinho. Pediu ajuda à razão, para que ela o ajudasse a superar tamanho sofrimento. A razão respondeu que estaria sempre ali, que nunca o iria deixar esquecer aquele grande amor e, que lhe daria forças para continuar. Deixou-os a sós... E eles amaram-se uma última vez. Choraram e prometeram amarem-se para sempre. Quando, finalmente, o coraçãozinho o abandonou, e a mãe-natureza o levou, o coração explodiu de tanta dor... perdera um grande amor. Hoje, vive e bate, perguntando-se porquê... Porque é que foi presenteado com tão belo e verdadeiro amor, para depois ser-lhe arrancado sem dó nem piedade? Porquê receber tão belo presente, para depois ter de chorar a sua perda? Apesar da angústia em que vive deste então, o coração sente que o seu coraçãozinho não o abandonou por completo. Sente que ele está sempre por perto. Mas sabe que tem de o deixar partir... Que o seu pequeno coração deve voltar para o seu mundo, puro e inocente. A razão acaricia-o e diz-lhe que, talvez um dia, ele possa amar assim de novo, e sem sofrimento. O coração tem medo e não sabe o que fazer com tanto amor que sobrou. Deseja que a razão esteja certa e secretamente anseia por um novo pequeno coração.

Carla André

Sonhei contigo...

21 de Janeiro de 2013

Hoje sonhei contigo meu amor. Foi o sonho mais doce que tive até hoje. Eras o bebé mais lindo e meigo que eu jamais conheci. E eras o meu bebé. Tinha-te nos meus braços, a embalar-te docemente. E tu assim ficaste, sossegadinho, encostado a mim, sentindo todo o meu amor por ti. Tinhas vestido o fatinho azul-clarinho que eu te comprei. Estavas lindo meu anjinho! O teu olhar cheio de ternura iluminava-me e, eu brilhava de tanto amor que tinha para te dar. Infelizmente, esse sonho não se quis realizar... Hoje, magoa-me todo este amor que ficou no meu peito. Era teu, todo teu... E eu estava tão mais que preparada para o partilhar contigo. Ias ser o meu amor mais lindo e eu ia ser a tua melhor mãe do mundo. E eu sei que tu sabes que sim. Ontem, quando vi as tuas fotos, chorei por demais, estavas tão doente, meu amor. Não merecias... Mereciamos ter vivido um grande amor, o nosso grande amor que crescia, a cada dia, dentro de mim. Não foi esse o nosso destino, meu anjinho. Mas esta noite, presenteaste-me com este lindo sonho de amor. E eu senti-me tão feliz enquanto sonhava. Eu sei que terias sido esse meu bebé. E será sempre essa imagem que guardarei no meu coração. O meu bebé lindo e meigo, que teve de partir mais cedo. Amar-te-ei para sempre meu anjinho. 

Carla André

Até um dia meu amor!

27 de Janeiro de 2013

Meu anjinho... hoje faz duas semanas que me deixaste. Os nossos corpos se separaram para sempre, mas as nossas almas continuam unidas pelo amor que existiu entre nós. Tenho saudades tuas meu anjinho... Um vazio imenso habita dentro de mim, desde que te foste, meu amor. Acredito que já eras parte de mim quando me encontraste... Os nossos corpos se uniram porque nossas almas se pertenciam. Escolheste-me como tua mãe e eu acolhi-te no meu ventre. E ofereceste-me um vislumbre do que é voltar a amar incondicionalmente. Este amor será sempre teu meu anjinho. Até um dia meu amor!

Carla André