Meu anjinho hoje é Domingo. Faz um mês que nasceste. Passaram 4 semanas desde que nos despedimos. Abandonaste o meu corpo, mas não me deixaste só... Vives no meu coração e aqui permanecerás, num cantinho só teu. Tenho saudades de ti meu amor, mas sei que estarás sempre comigo. Pertencemos um ao outro, és parte de mim e eu sou parte de ti. Serás sempre o meu bebé lindo, o meu menino. Hoje sei, melhor do que nunca, o verdadeiro significado do amor. Vieste me mostrar que viver é amar e sem amar não vale a pena viver. Mesmo que o amor rime constantemente com a dor, é preciso amar todos os dias. E eu vou tentar, meu anjinho. Vou tentar não esquecer que há mais quem mereça esse meu amor. Hoje, tenho plena consciência de que tenho sido negligente na minha forma de amar. E sei que tenho de mudar. Aos poucos vou entendendo melhor a tua missão. Vieste me ensinar o que mais me custa a aprender. Mas à medida que o tempo passa e me afasta de ti, mais me aproxima de mim. E em mim, tu existes. Porque foram apenas nossos corpos que se separaram, os nossos espíritos permanecem unidos, para todo o sempre. Amo-te muito meu anjinho. Serás para sempre meu amor.
Carla André
domingo, 10 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
A tua missão...
Carla André
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
A minha história...
Perdi o meu filho, à 21 dias. Estava grávida de 18 semanas (clinicamente 20 semanas). Tenho
escrito muito sobre o que sinto, e isso têm-me ajudado a aliviar o meu
sofrimento. Aos poucos a dor vai-se atenuando, mas nunca me abandona por
completo. A cada dia que passa, vou sentindo que tomei a decisão certa... Vou
aceitando a minha perda. O meu bebé era muito doente. Não seria justo para
nenhum de nós, trazê-lo ao mundo, para sofrer. O médico nunca me deu qualquer
esperança, ele poderia morrer dentro de mim, ao nascimento ou algumas horas
após. O que ele tinha, ao certo, ainda não sei. No final de Fevereiro saberei,
ou não, quando me for entregue o resultado dos exames e autópsia. Sei apenas
que era uma doença óssea grave. As fotos do meu bebé confirmam, graves
deformações nos braços e perninhas do meu anjinho. O médico falou em doença
genética... Esperarei pelo seu diagnóstico. Há pouco mais de 15 anos fui mãe de
uma menina. Tinha eu 20 anos, era demasiado jovem para ser mãe. Como tal,
sentia-me contrariada e revoltada. Confesso que pensei em abortar. Felizmente,
não o fiz, não tive essa coragem. Hoje tenho nela a minha melhor amiga, o meu
grande amor. Assumi a minha gravidez e abdiquei de todos os meus sonhos e
projectos, para a criar e amar. Não foi fácil, existiam tantos "ses"
em meus pensamentos. E existia um forte ressentimento contra a minha filha, algo
que eu não conseguia controlar, mas que nunca me impediu de cuidar dela, como
ela merecia. E eu sabia que ela era uma criança feliz. Esforcei-me por ser uma
boa mãe, apesar dos apesares. E cresci com ela. Tornámo-nos amigas,
companheiras... Superámos juntas todos os obstáculos que a vida insistiu em
colocar no nosso caminho. Mas eu sempre senti, que apesar de ter sido uma boa
mãe, que poderia ter sido ainda melhor. Vivi muito à pressa a sua infância, não
desfrutei a 100% todos os momentos, deveria ter sido melhor mãe. Quando voltei
a engravidar, 15 anos depois, julguei que seria esta a minha oportunidade de
voltar a amar assim alguém, agora com menos pressa, com mais prazer. Mas o
destino não o permitiu. Castigo? Talvez... Há 15 anos pensei em abortar um bebé
saudável e agora que desejava tanto este, tive de abortar devido à falta de
saúde. Não sei... Não compreendo. Martirizo-me com este pensamento. Eu que
finalmente estava mais que preparada para ser mãe de novo, com tanto amor para
dar, perdi o meu menino... Não é justo. Não existem palavras no mundo que descrevam esta dor imensa. Não foi uma gravidez planeada mas também não evitada. Vivia momentos de incerteza dentro da minha relação, muitos altos e baixos... Mas a única certeza que eu tinha, é que gostava muito de voltar a ser mãe, ter algo meu e
do meu companheiro, um filho do homem que amo. E tive, ainda que por pouco
tempo... E terei, teremos para sempre. Apesar de tudo, no final
de Setembro descobri que estava grávida. Não fiquei logo feliz, senti uma
aflição no meu peito. Desde meados do mês que sentia fortes dores no
baixo-ventre e rins. Dores que foram se intensificando a cada dia que passava,
assemelhando-se às contracções de um trabalho de parto. No inicio, pensei que a
menstruação desse mês seria bastante dolorosa (como acontecera em outros
meses), e as dores só passariam quando ela chegasse... Afinal estava mesmo
grávida, quando julguei que já não seria possível. Fomos ao hospital, onde
se confirmou a gravidez e sendo o nosso receio, a hipótese de uma gravidez
ectópica, fizeram-me outras análises que tive de repetir dois dias depois.
Disseram-me que estava tudo bem, que apesar de o embrião ser ainda invisível,
estaria bem instalado no meu útero. Quanto às dores, não me souberam
diagnosticar, em mim seriam normais... Aconselharam-me a consultar a minha
ginecologista. O meu maior receio naquele momento, era o facto de trabalhar com
produtos químicos, em contacto com gases altamente tóxicos, numa fábrica sem
condições, sem qualquer tipo de ventilação e sem uso de máscaras próprias para
aquele género de trabalho. Facto a que nem o médico do hospital nem a minha
ginecologista deram importância. Apenas o meu médico de família se interessou
pelo caso, prevenindo-me de que se o meu corpo estava a reagir dessa forma à
gravidez é porque talvez o meu bebé já estivesse intoxicado e o meu organismo o
quisesse expulsar. Ele disse que muitas vezes quando o nosso corpo detecta
essas malformações nas células que se estão formando, a sua resposta, é o
aborto espontâneo. Falou que o melhor seria denunciar as condições na fábrica onde eu
trabalhava. Foi assim que se confirmou a falta de condições no meu local
de trabalho. E eu só pensava para mim "se calhar o mal já está feito, se
calhar o meu bebé já está doente". Só após essa inspecção, é que os meus
patrões se dignaram a vir falar comigo e a informarem-me de quais eram os
químicos realmente tóxicos para o meu embrião e quais os trabalhos que eu
deveria evitar. E só em Novembro me deram uma máscara própria para usar.
Enquanto isso, as dores foram-se atenuando, sentia-as todos os dias, mas cada
vez mais fracas. Como a médica-ginecologista, nunca se mostrou preocupada,
comecei a descontrair e a desfrutar da minha gravidez. Com um inicio de
gravidez tão conturbado, eu tinha tentado não me afeiçoar ao meu
"feijãozinho", mas agora tudo parecia mais normal. E deixei-me levar
ao sabor do amor... Mas a minha preocupação mantinha-me, sempre alerta, porque
eu achava que as dores que sentia não eram, de facto, normais. Eu amava o meu
bebé, mas sentia-me angustiada, algo em mim me avisava que ele não estava bem.
Tentei ignorar essa voz que me falava todos os dias para me preparar... Quando
fui à consulta das 12 semanas (clinicamente falando, porque eu estaria de 10),
a ginecologista disse que estava tudo bem e que portanto só precisava de voltar
dali a 6 semanas, dia 5 de Janeiro de 2013. Saí do consultório tão feliz, que
rumei ao shopping mais próximo para presentear o meu bebé com alguma
roupinha... Finalmente, me senti mais aliviada. Mas a tal voz nunca me
abandonou. Eu desprezei-a totalmente e decidi amar o meu bebé como ele merecia.
E sonhava, como ele seria, com os momentos que iriamos partilhar, com todo o
amor que eu tinha para lhe dar. Estava tão feliz! E sentia que ia ser um
menino, o meu menino. Dia 5 de Janeiro chegou, sentia-me nervosa e muito
ansiosa. Adoeci dois dias antes, sentia-me estranha... receosa. Antes de entrar
no consultório, tremia. Percebi que algo não estava bem, mas quis ignorar o que
sentia. Quando, finalmente, a médica iniciou a ecografia, o meu coração bateu
mais forte... Senti a sua apreensão. Ela media e media, repetia e repetia,
demorava e demorava. O meu coração encolheu-se no meu peito. Finalmente, ela
demonstrou um pouco mais de calor no meio da sua tipica frieza. Estava
preocupada. Disse que o meu bebé parecia ter os ossos das pernas muito curtos.
Marcou-nos uma consulta com um outro especialista. Apartir desse dia, as lágrimas
foram minha companhia. O meu bebé estava doente, e eu já há muito que sabia...
Tinha consulta, no hospital, no dia 8 de Janeiro, Terça-feira, às 13 horas.
Entrei na madrugada desse mesmo dia, nesse mesmo hospital, com uma hemorragia.
Observaram-me, fizeram nova ecografia e não detectaram o problema. Fiquei
internada para observação. Às 13 horas e 30 minutos, fui atendida pelo médico,
simpático e atencioso. Fez-me a ecografia "especial" e foi
conversando comigo, não demonstrando qualquer tipo de emoção. Senti-me mais
aliviada, "talvez não seja nada" pensei eu. Acabando o exame, disse-me
que tinha uma reunião de seguida e, que portanto, só depois poderia falar
comigo e apresentar-me o resultado da ecografia. Fiquei de novo alerta, ele
talvez para me acalmar, ofereceu-me uma "foto" do rosto do meu bebé.
Fiquei fascinada, conseguia ver os olhinhos, a boquinha e o lindo narizinho. Ao
fim de duas horas o médico pediu para falar comigo e de uma forma bastante
penosa me informou que o meu bebé tinha graves problemas, indicando uma grave
doença óssea. As lágrimas saltaram-me dos olhos e uma dor imensa invadiu todo o
meu corpo, apertando o meu coração. Perguntei-lhe se podíamos fazer alguma
coisa, e ele respondeu que não. Cada vez que me lembro desse momento, a dor volta
com a mesma intensidade. Como é possível uma mãe ter de sofrer assim?
Continuámos a falar, mas eu só queria fugir, para longe daquele pesadelo,
daquela minha realidade. Ele queria fazer mais exames, inclusivé, a
amniocentese. Falei-lhe no aborto. Ele aconselhou-me a esperar um pouco mais,
ou até mesmo a avançar com a gravidez, visto que muitas vezes, só ao fim dos
nove meses de gestação se pode diagnosticar melhor a doença. Concordei apenas
com a amniocentese, o que me obrigaria a esperar mais um mês. O médico
"convenceu-me" ao dizer que os riscos de fazer o aborto agora ou
depois seriam os mesmos para mim. Fui para o quarto lavada em lágrimas...
Afinal, tudo o que eu sentia desde o inicio, era verdade, o meu bebé estava
condenado. Sozinha, pensando de mim para mim, cheguei à conclusão que o ficar à
espera mais um mês, só me faria pior emocionalmente. O médico tinha-me
garantido que não havia esperanças para o meu bebé. Apenas queria estudar o meu
caso, afinal, eles antes de serem médicos, são cientistas. O meu companheiro
veio ter comigo ao hospital, depois do trabalho, e decidimos então que não
valia a pena esperar, íamos abortar. No dia seguinte, informei o médico, que
ficou desiludido comigo e me disse que apesar da doença, aquela vida pertencia
ao meu bebé... Respondi-lhe que não era justo, nem para mim nem para o meu
bebé, trazê-lo a este mundo para sofrer... Era eu que tinha de decidir. Visto
que a amniocentese não iria nunca mudar o estado de saúde do meu bebé, eu tinha
de abortar e não podia esperar. Eu só queria que aquele triste sonho acabasse e
ir para casa... Para os braços da minha filha e do homem que amo. Ele
explicou-me então como seria todo o procedimento: primeiro tinha de conversar
com uma psiquiatra que atestaria se eu estava em condições psicológicas de
tomar aquela decisão. No dia seguinte, tomaria três comprimidos que iriam
preparar o meu corpo para a expulsão do meu bebé. Depois, iria para casa dois
dias e, voltaria ao hospital, onde me aplicariam um ou dois comprimidos, via vaginal,
para induzir o trabalho de parto. No final, perguntei-lhe se o meu bebé iria
sofrer, ele respondeu que os cientistas crêem que neste tempo de vida, os bebés
não sentem qualquer dor... Eu quis acreditar, mas o facto de ele não me olhar
nos olhos ao falar-me, deixou-me na dúvida. Mas tentei acreditar na mesma, o meu
bebé não podia sofrer, e certamente não teria passado por esta vida para saber
o que é o sofrimento. E era a isso, que eu o iria poupar. Foi a semana mais
triste de toda a minha vida. Nunca pensei sentir dor igual. Que angústia, que
agonia. Sexta-feira dia 11 de Janeiro tomei os 3 comprimidos. Antes disso, e devido às dores que eu sentira na noite anterior, o médico fez-me outra ecografia, a placenta já se começara a descolar... Para mim era um sinal, sinal de que este era já o fim destinado ao meu bebé. Voltei para casa. Passei o tempo a chorar. Sábado senti a necessidade de me despedir do meu
bebé, enquanto ele ainda vivia dentro de mim. Escrevi-lhe uma carta, dizendo
tudo o que sentia, e pedindo-lhe desculpa... Assim me despedi dele, prometendo
amá-lo sempre e para sempre. No Domingo voltei ao hospital, fui internada às 10
horas, o meu bebé "nasceu" às 19 horas do dia 13 de Janeiro de 2013.
O meu dia mais infeliz... Quando o seu corpo abandonou o meu, algo em mim se
perdeu, algo meu morreu... E eu chorei como nunca tinha chorado. Como será
possível alguém sofrer assim? Eu amava tanto o meu anjinho e fui obrigada a
enviá-lo de volta ao seu mundo. Após o seu "nascimento" a enfermeira
cuidou dele com muito carinho, como se ele fosse vivo... Perguntou se eu o
queria ver, mas fui incapaz. No final, ofereceu-me umas fotos dele, que só fui
capaz de ver no passado Domingo. Estava tão doente o meu menino... Porque a
mãe-natureza permitiu tal coisa? Chorei tanto depois de ver as fotografias do
meu anjinho... Ele não merecia. Ele merecia ser feliz comigo... E talvez o
tenha sido. Eu amei-o, e amo, tanto. Ele sentiu o amor que eu tinha por ele...
E foi por isso, que no final, não me importei de o acompanhar até ao fim da sua
viagem, mesmo com toda a dor física que senti. Porque ele merecia que eu
estivesse a seu lado. E a dor física não era nada, em relação à dor que eu
sentia na minha alma, ao entregá-lo de volta ao mundo, puro e inocente, onde os
anjos repousam e olham pela gente. Hoje, sinto que foi nesse momento, que os
nossos corpos se separaram e as nossas almas se uniram para todo o sempre.
Carla André
Carla André
Antes do aborto...
10 de Janeiro de 2013
Estou no
hospital à espera que o médico me diga quando iniciaremos o procedimento, a
expulsão do meu bebé... Estou grávida de 17 semanas (clinicamente 19). Imagino
que o pior ainda esteja para vir, mas este tempo de espera corrói-me por
dentro. Quem me dera que o meu bebé fosse saudável e eu não tivesse que o tirar
de dentro de mim. Mas a realidade é outra... No Sábado a minha médica viu que
algo não estava bem e encaminhou-me para esta clinica. Terça um médico
especializado efectuou a ecografia que veio a confirmar que o meu bebé não é
nem nunca será saudável. Ao certo não soube explicar, só me disse que tem
graves problemas a nível ósseo (esqueleto) e que precisava de mais tempo para
diagnosticar a doença. De qualquer forma, não me deu qualquer esperança, ao
dizer que tudo o que via eram indícios de graves doenças, e que não podia fazer
nada pelo meu bebé. Falou na hipótese de ele poder morrer durante a gestação,
após o parto ou mesmo sobrevivendo, que teria pouco tempo de vida. Mas tudo
isso seria, será, uma incógnita. Ainda assim, apesar de compreender a minha
decisão, tentou convencer-me a não abortar. Aqui na Suíça, a mentalidade é
outra... Aconselhou-me a fazer a amniocentese, esperar os resultados e fazer
mais análises e outra ecografia, para ele tentar compreender melhor a doença.
Após isso, poderia abortar na mesma se assim o desejasse. Aliás, ao que
entendi, o ideal para ele seria eu levar a gravidez avante, porque só nessa
altura, ele poderia diagnosticar realmente a doença do meu bebé. Eu pensei para
mim "ele é médico, mas é em primeiro lugar um cientista... é normal que me
incentive a continuar a gestação, para continuar a sua investigação
cientifica". Por outro lado, falou-me que era uma vida que estava dentro
de mim (eu que sei isso melhor do que ele), uma vida que tem direito a viver...
ao que eu respondi que tipo de vida teria este bebé se sobrevivesse? Óbvio que
não me soube responder, apenas me soube dizer que muita gente opta por ter os
seus bebés apesar das doenças e deficiências. Eu apenas lhe disse que isso não
seria justo para mim e para o bebé, eu nunca iria trazer ao mundo uma criança
para sofrer, ou para servir de cobaia a uma equipa de cientistas e médicos.
Apesar de sentir que ele compreende a minha decisão, não senti apoio da sua parte.
E enquanto espero, vou-me despedindo do meu bebé e ao mesmo tempo tentando
ignorá-lo, para evitar maior sofrimento, mas é impossível, e só quem passou por
este momento de angústia é que me consegue compreender. Pelo que percebi, eles
vão tentar que o procedimento seja o menos doloroso para o bebé (será isso
possível?) e para mim, óbvio. Ainda irei para casa com ele este fim de semana
(ele, um menino)... mas este tempo de espera mata-me, pensei que seria mais
rápido. Tomarei 3 comprimidos e irei para casa por 2 dias, o tempo para o meu
organismo se preparar, depois virei para a clinica onde me darão um ultimo
comprimido, que supostamente, induzirá o aborto/parto... só espero que me
ponham a dormir, não quero essa triste recordação. Tudo isto e já tao doloroso,
não preciso de recordar esse momento, já ficarei marcada por esta dor para
sempre. Só preciso que isto acabe rápido para eu poder voltar para casa e
tentar "esquecer" tudo. Voltar, aos poucos, à minha vida, à minha
filha que adoro, ao homem que amo. Quanto ao meu bebé, acredito que seja um
anjinho que teria a sua missão e que talvez já a tenha cumprido. Talvez a sua
missão fosse eu, e eu só a compreenderei mais tarde... Porque finalmente,
apesar de todos os sinais (o mal-estar e dores que eu sabia não serem normais),
resolvi ter esperança em algo, afinal algo sem esperança. Não sei como irei
superar isto, mas sei que o farei e sei que este bebé ira ser recebido no lugar
onde os anjos repousam.
Continuo à
espera que o médico me informe de quando iniciaremos o procedimento. Sinto que
uma parte de mim morre lentamente... e na verdade, morrerá em breve. Sinto
que tomei a decisão certa, mas nem por isso deixa de ser dolorosa. E é por isso
que eu não posso, não devo esperar muito mais, dói muito senti-lo dentro de mim
sabendo que nunca o irei ter nos meus braços. Prefiro chorar agora do que
chorar mais tarde por não ter tomado esta decisão. O médico tem a certeza que
ele não é normal nem saudável, só não consegue identificar ainda a doença.
Porque hei-de eu esperar mais tempo, fazer mais exames, se nada disso mudará o
estado de saúde do meu bebé? Mais tempo trará mais dor e sofrimento. Agora só
quero acordar deste pesadelo... foi um lindo sonho, mas acabou.
"E
se..." existirá sempre, mas eu acredito no médico. A minha médica viu algo
de errado nos ossos das pernitas, a médica que me observou na madrugada de
terça-feira viu o mesmo. Tinha o exame marcado para as 13 horas mas tive de vir
às urgências porque comecei com uma hemorragia, nessa madrugada, que ainda não
parou e os médicos não sabem de onde vem. O médico às 13 horas e 30 fez-me a
tal ecografia "especial" que detectou os restantes problemas, graves
problemas. Ele disse que até mesmo os sintomas que tenho (dores fortíssimas e
mal-estar geral) desde o inicio da gravidez, são indicativos de que algo não
estava bem. Já o meu medico de família me tinha "avisado" disso, mas
como ainda era cedo para detectar algo e a minha ginecologista não se mostrou
preocupada, apesar de dizer que as minhas dores não eram normais... eu mantive
sempre a esperança de que estaria tudo bem com o meu bebé. O facto é que eu
acredito no médico, a medicina evoluiu bastante nos últimos anos e ele próprio
quis ser sincero e não me dar falsas esperanças quanto à saúde do meu bebé. Eu
acredito, porque desde o inicio que sentia que algo estava errado com o meu
bebé e os factores à minha volta mais me "ajudavam" a recear... tenho
36 anos, tenho uma deformação acentuada no útero, trabalho com químicos
altamente tóxicos, e afinal o meu companheiro tem, na família, casos de doenças
nos ossos. As dores continuam, por vezes mais fortes, e a hemorragia, apesar de
ser mais fraca, também. Pergunto-me porque é que a natureza não me ajuda então,
em vez de termos de forçar o aborto. Tudo isto, para mim, é um sinal que está
na hora de nos separarmos. E não digo isto porque o deseje, mas porque começo a
aceitar que tem mesmo de ser. Apenas me resigno à realidade. O meu desejo é que
o meu bebé fosse saudável e que não tivéssemos de passar por isto. Mas não há
nada a fazer quanto a isso. A única coisa que posso fazer é evitar a nossa
infelicidade e de quem nos rodeia...
Carla André
Carla André
À espera...
11 de Janeiro
de 2013
Continuo à
espera... À espera que o médico se digne a vir falar comigo... porque é que
prolongam o meu sofrimento? Sendo já um momento tão penoso, porque não me
ajudam a "aliviar" esta dor que me rasga por dentro? Porquê esta
tortura cruel? Não chega eu descobrir que o meu bebé é doente e ter de decidir
pôr um fim a sua vida? Haverá sofrimento maior? Nunca perdi ninguém na vida,
que eu amasse... mas não imagino que haja maior perda que a de um filho. É uma
parte de nós que morre e que dói para sempre. Apesar dele só existir à quase 18
semanas, dentro de mim, amo-o como se já fizesse parte da minha vida à muito
muito tempo. Esse amor nasce dentro de nós e vai crescendo à medida que o bebé
se vai desenvolvendo. A ligação entre nós se fortalece a cada dia que passa.
Não é justo passar por isto. Se algo não estava bem, porque é que a natureza
não se encarregou da situação? Seria melhor assim... Eu sentia que algo não
estava bem. Mesmo antes de descobrir que estava grávida, as dores intensas que
eu sentia, como se estivesse em trabalho de parto, não eram normais. Esperei
pela menstruação que não veio e fiz teste, estava grávida. Não fiquei feliz
porque receei imediatamente que algo não estivesse bem. Podia estar para
abortar ou ser uma gravidez ectópica... dirigi-me às urgências que me enviaram
para esta mesma clinica. Não perceberam o porquê das dores, o embrião era
"invisível", mas através de análises ao sangue disseram-me que não
era gravidez ectópica. Para confirmar, marcaram novas analises para 2 dias
depois. Estava tudo bem. Aconselharam-me a marcar consulta na minha
ginecologista, assim o fiz. Mas eu não estava descansada e as dores continuaram
por mais 2 semanas. Após esse tempo, acalmaram mas continuaram sempre, no
baixo-ventre e rins. A minha maior preocupação era o facto de trabalhar com
produtos químicos e tóxicos, numa fábrica mal ventilada, sem máscara própria...
facto que foi ignorado, tanto pelo médico que me atendeu nas urgências desta
clinica, assim como, pela minha ginecologista. Hoje penso se esse factor não
terá também tido influência no estado de saúde do meu bebé. Como terei de
continuar com a minha vida após esta "execução", o meu primeiro passo
será demitir-me. Se essas condições de trabalho não tivessem sido denunciadas
às autoridades competentes, os meus chefes nunca se teriam preocupado ou
interessado pelo meu estado de gravidez. Só após essa inspecção, em que se
confirmaram as tais faltas de condições, é que se dignaram a falar comigo e a
me informarem sobre o que era realmente prejudicial e quais os trabalhos que eu
deveria evitar. Algo com que nem a minha médica se preocupou em se informar.
Recentemente, outra colega assumiu também a sua gravidez e informou o patrão de
que o seu médico pedia informações sobre os produtos químicos com que
trabalhamos, justificando que não achava que aquele fosse trabalho para uma
mulher grávida. Essas informações foram-me também entregues e só apos isso é
que a minha ginecologista se mostrou mais interessada. Isto, no Sábado passado,
quando verificou que algo não estava bem com os ossos do meu bebé. Se a culpa é
da minha idade, da genética ou dos produtos tóxicos com que trabalho, não sei.
Por vezes, penso que fui eu que atraí este mal, ao pensar tanto nisto, nos meus
medos e receios... tantas vezes que "pedi" para que o meu bebé fosse
perfeitamente normal e saudável, mas penso que é normal pensar-se assim... É o
que todas as mães desejam.
Finalmente o médico apareceu, rodeado
de uma vasta equipa, disse que logo que terminasse a ronda, viria falar comigo.
Já passou mais de uma hora, aproximando-se a hora do almoço, só já devemos
conversar após as 14 horas. Eu só queria que isto terminasse e eu pudesse ir
para casa, fechar-me no meu quarto e chorar enquanto me despeço do meu bebé.
Andei a investigar, aqui na internet, as várias doenças ósseas que existem,
talvez a tenha encontrado, visto que o seu perfil se encaixa naquilo que o
medico me disse... displasia camptomelica. Se assim é, sem dúvida que tomei a
decisão correcta. Apesar disso, a tristeza e agonia insistem em me torturar.
Tinha tantos planos com o meu bebé... Só quero resolver esta situação e correr
para junto da minha filha, a minha melhor amiga, o amor da minha vida. Este meu
filho ficará sempre comigo, dentro de mim, do meu coração. Talvez a sua curta
existência tivesse um propósito maior, que ainda não compreendo... mas acredito
que em breve irei descobrir. Adeus meu anjinho...
Carla André
Carla André
Adeus meu anjinho...
Preciso de me despedir de ti, meu amor... Enquanto ainda vives dentro de mim. É tão doloroso ter de tomar uma decisão destas, dói tanto ter de te expulsar do meu ventre, do teu ninho. Desculpa meu amor... Não percebo porque isto nos aconteceu. Eu estava tão feliz e tinha já tantos planos para nós. Eu tinha tanto medo que não estivesses bem, mas mantive sempre a esperança em ti. Pensei que a vida finalmente me deixasse ser feliz. Doeu tanto ouvir aquelas palavras... que tu eras doente e que o médico não podia fazer nada por ti. Eu não queria acreditar, mas algo em mim sempre me disse que tu não estavas bem. E é por isso que eu não te posso trazer ao mundo, só irias sofrer. E eu ia sofrer por não ter tido a coragem de tomar esta decisão e poupar-te ao sofrimento. Desculpa meu bebé... eu não acredito que a tua vinda tenha sido em vão. Acredito que tudo tem um porquê, uma razão. Vieste numa missão e agora tens de voltar. Neste momento, não consigo entender, mas sei que um dia só terei que te agradecer. Tenho de acreditar que assim será. Não foi por qualquer motivo que apareceste na minha vida. Talvez sejas uma lição que eu deva aprender, mas agora não sou capaz... agora sofro demais por ter de te enviar de volta ao teu mundo, o lugar onde os anjos repousam e olham por nós. Amo-te meu bebé, apesar de só viveres comigo à 18 semanas. Amo-te como se vivesses comigo desde sempre. E acredita que viverás sempre comigo, no meu coração.
Esta será a
nossa última noite juntos... Amanhã já nos iremos separar. Não sei o que farei
sem ti. Incrível, em como em tão pouco tempo um amor cresce, como o meu cresceu
por ti. Eu devia começar a tentar o desapego para não sofrer tanto, mas penso
que é impossível e acredito que devo mesmo sofrer pela tua perda, sem
"camuflagem", para depois conseguir seguir em frente. Após receber a
maldita noticia, tentei fazê-lo, tu sabes... tentei ignorar-te. Mas porque o
devo fazer, se ainda vives dentro de mim? Porque te havia de ignorar se ainda
estás vivo, se ainda estás comigo? Não, resolvi continuar a falar contigo, a
mimar-te como fazia antes, porque tu mereces. Não tenho de te desprezar, nem
desprezar os meus sentimentos. Tenho de continuar a amar-te enquanto aqui estás
comigo... Na verdade, nunca deixarei de te amar, meu amor, meu anjinho, meu
bebé lindo. Treino o desapego depois, depois quando te entregar de volta ao teu
mundo. Um mundo melhor, em paz, sem dor nem sofrimento. Vou acreditar nisso,
meu amor. Eu irei sofrer todos os dias, um bocadinho, até restarem apenas
vestígios dessa dor. Se eu não me permitir a tal, irá doer muito mais e as
marcas serão mais profundas. Eu sei que tu queres que eu seja feliz, e serei...
farei isso por ti. Talvez fosse essa a tua missão, só pensei que ficarias
comigo, para sermos felizes juntos. Prometo que vou tentar ser um pouco melhor
todos os dias... Por ti, pelas pessoas que amo. A tua vi(n)da não foi em vão,
meu amor. Por muito que me doa, sei que vieste ensinar-me algo muito
precioso... penso que aos poucos irei desvendar a razão da tua passagem pela
minha vida. Só queria que tivesses ficado e te tivesses tornado no bebé lindo
que eu tinha imaginado... a criança, o adolescente, o adulto, que eu teria
amado. Agradeço-te por me teres dado o prazer de ser tua mãe, ainda que por breves
momentos. Fui tão feliz! Eu não sabia que era assim... quando engravidei da tua
mana, era muito nova. Era uma mãe revoltada, contrariada. Era demasiado jovem
para sentir este prazer. Claro que a amava, mas sentia-me infeliz, não estava
preparada para ser mãe. No entanto, sei que fui, que sou uma boa mãe. Quando
vieste, 15 anos depois da tua irmã, já eu estava mais que preparada para te
receber... ia ser a tua melhor mãe do mundo. Mas não foi esse o nosso destino e
amanhã nos iremos separar. Tu sabes que não foi fácil a minha decisão, quem me
dera que a natureza o tivesse feito por mim. O médico foi sincero quanto ao teu
estado de saúde, não seria justo para nenhum de nós, trazer-te ao mundo... não
seria esse o teu propósito. Tu sabes o quanto eu estou a sofrer, não te queria
perder. Tinha tantos sonhos com o meu menino lindo... Tu sabes, vives dentro de
mim, sentiste certamente todo o amor que sinto por ti. Agora tenho de te deixar
partir e, aos poucos, mandar a minha dor embora. Amo-te, meu anjinho, ficarás
para sempre dentro de mim, do meu coração.
Carla André
Carla André
Meu Amor...
O meu
anjinho voltou para o seu mundo... "Aqueles que passam por nós, não vão
sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." ♥
Um amor que nasceu e cresceu dentro de mim... Um amor que não se concretizou... Viveste apenas 18 semanas no meu ventre, mas tornaste-te eterno... Vou-te amar para sempre meu anjinho ♥
Carla André
Um amor que nasceu e cresceu dentro de mim... Um amor que não se concretizou... Viveste apenas 18 semanas no meu ventre, mas tornaste-te eterno... Vou-te amar para sempre meu anjinho ♥
Carla André
Não entendo...
17 de
Janeiro de 2013
Não
entendo porque estas coisas acontecem... Mulheres que desejam imenso serem mães
e não conseguem engravidar, mães que amam seus filhos ainda no seu ventre e os
perdem, mães que têm seus filhos nos braços quando o sopro da vida os
abandona... E existem outras mães capazes de matar seus filhos recém-nascidos
ou não, sem percebermos porquê. Porquê? Decididamente, a vida não é justa. Quem
me dera que o meu bebé estivesse bem para eu não ter de tomar esta decisão.
Quem me dera que os meus desejos se tivessem concretizado e ele fosse perfeitamente
normal e saudável. Mas o destino não deixou que assim fosse e eu tive de
expulsá-lo do meu corpo e deixá-lo partir. Muitas mães sabem a sensação que é,
o sentimento que fica após semelhante acto. A vida foi madrasta... Porque é que
não deu a oportunidade ao meu menino de se tornar um ser humano feliz? Não,
obrigou-me a decidir o que fazer com a vida dele. Uma vida que, segundo o
médico, poderia nem sequer chegar a nascer, morrer após o nascimento, ou
sobreviver pouco tempo, mas em sofrimento. Terá sido a minha decisão um acto de
misericórdia? Se assim foi, porque tem que magoar tanto? Ficou tanto amor
dentro de mim, para lhe dar... e ele merecia tanto este meu amor. Ainda falo
com ele, como se ainda vivesse dentro de mim. Tenho saudades dos sonhos que construía
para ele, para nós, todos os dias. Sinto falta da sua presença em mim. Éramos
um só e ficaríamos (e ficámos) unidos para sempre. Sei que fiz o que estava
certo, mas foi e é demasiado angustiante e doloroso. Neste momento, a escuridão
da vida envolve-me, ao me ter obrigado a abdicar da luz que era o meu anjinho.
Carla André
Carla André
Desabafo...
17 de
Janeiro de 2013
Preciso de
desabafar a minha dor... por isso vou enchendo páginas e páginas, tentando
aliviar este meu sofrimento. Nenhuma mulher deveria passar por tamanha agonia. Perder um filho é o que há de
mais doloroso na vida de alguém. Sempre pensei assim, hoje sei-o... Quando
tomei a decisão de abortar, sem dúvida que foi o instante mais doloroso vivido
até ao momento. Mas quando, finalmente senti o meu bebé a ser expulso do meu
corpo, esse sim, foi o momento mais infeliz da minha vida. Que tristeza tão sem
medida... tristeza essa que, desde então, possui todo o meu corpo, toda a minha
alma. Tristeza que agora não me abandona um momento sequer, deixando-me
despojada de mim mesma. O meu bebé de 18 semaninhas "vive" longe de
mim, para sempre. Quando me explicaram como seria o aborto induzido, eu fiquei
muito assustada. Ia passar por um parto, sem no final ter o meu filho nos
braços... só pensava em minimizar a minha dor física e psicológica. Mas hoje
sei que foi o melhor para mim e para o meu anjinho. Hoje compreendo o porquê de
induzirem o parto. É o respeito pela vida, a vida humana. Ele merecia nascer
como qualquer outro bebé, apesar daquele momento, ser o fim da sua viagem. E eu
precisava também, de passar com ele, por esse momento. Foi, naquele instante,
que os nossos corpos se separaram e que as nossas almas se uniram. Naquele
quarto de hospital, cuidaram bem do meu menino, como se ele tivesse nascido
"normal e perfeito"... como se ainda fosse vivo. Foram carinhosos e
atenciosos. Queriam que eu olhasse para ele, pela primeira e ultima vez, mas
fui incapaz. E então tiraram-lhe fotografias, colocaram-lhe um pequeno gorro e
umas luvinhas, talvez para disfarçar as suas "imperfeições", e no
final ofereceram-me-os, junto com a mantinha onde o envolveram com tanto
cuidado, quando o levaram para longe de mim. Foi enternecedora a forma como
cuidaram do meu menino. Também me foi oferecido um postal com os dados do seu
nascimento e a marca dos seus pézinhos. Uma marca de que ele passou por esta
vida. Quem me dera que ele tivesse tido a oportunidade de nascer em Junho de
boa saúde e levar logo todos aqueles carinhos e miminhos... carinhos e miminhos
que também eu lhe daria mal me o colocassem nos braços. Mas isso agora é apenas
um lindo sonho que eu tive, e que teve um final infeliz. Ainda não fui capaz de
ver as fotos, tenho medo do que mais irei sentir. Tenho o quarto, que seria
dele, enfeitado com anjinhos e velas, para o homenagear todos os dias. Falo com
ele como falava dantes, quando ele ainda vivia no meu ventre, e sinto falta da
minha barriguinha, tenho saudades dos seus pequenos e suaves movimentos. Sempre
acreditei que iriamos ficar juntos para sempre e tentei a todo o custo ignorar
a sensação de que algo não estava bem com a minha gravidez. Hoje sei, que se
pudesse, tentaria de novo... não para o substituir, porque ele foi único, mas
porque o meu peito ficou a transbordar de um amor infinito, capaz de me
consumir até à extinção.
Carla André
Carla André
Era uma vez...
Era
uma vez um coração que vivia e batia, porque é o que um coração faz. Não era
feliz nem infeliz. Ele amava, em especial, dois outros corações. Mas muitas
vezes, sentia um vazio dentro de si. Existia um cantinho, um espaço por
preencher. Ele desejava secretamente um novo coração que o fizesse bater,
novamente, de alegria. Um dia algo aconteceu... o corpo que o envolvia começava
a gerar uma nova vida. Aos poucos, um novo coraçãozinho surgia. O coração bateu
de felicidade, tinha nova companhia. Mas veio a mãe-natureza que o preveniu,
algo não estava bem com o invólucro do seu pequeno coração. O coração não quis
saber, ignorou, estava tão feliz! Um novo amor começava a crescer dentro de si,
preenchendo aos poucos, o espaço vazio que tanto lhe doía. E os dois batiam
felizes por estarem juntos, por se poderem amar livremente. O coração, por
vezes, pensava no que a mãe-natureza lhe tinha dito, mas logo tentava esquecer.
Como seria possível que algo viesse acabar com tanto amor? E o amor crescia a
cada dia. Era lindo voltar a amar assim! O coraçãozinho sentia-se agradecido
por ser tão bem amado. Valia a pena viver ali. Por sua vez, o coração sentia
medo, mas não conseguia parar de amar. Sentia um prazer imenso em poder amar
incondicionalmente um outro coração. Um dia, a mãe-natureza voltou e a razão
falou... Ela disse ao coração que a mãe-natureza não tinha levado o
coraçãozinho mais cedo, porque o coração lhe pedira, mesmo sem palavras, que
ela não o fizesse. O coração vivia tão sedento de amor, que a mãe-natureza
prolongou-lhe aquele momento. Foram semanas de puro amor. A razão observara
tudo, mas mantivera-se longe, respeitara os sentimentos do seu amigo coração. E
soubera sempre que ele iria sofrer, mais cedo ou mais tarde. Chegado o momento,
conversou com ele. A mãe-natureza esperava e sabia que agora precisaria de
ajuda, não ia conseguir separá-los sózinha. Então, a razão disse ao coração que
ele sabia, que no fundo sempre soubera, que aquele dia ia chegar. E que ele
sabia que era o mais certo a fazer, o corpo que envolvia o pequeno coração,
estava doente e não havia outra solução. O coração chorou, uma dor imensa o
trespassou e ele sangrou de tanta agonia. Como era possível? Porquê deixá-los
amarem-se tanto, se aquele amor estava condenado ao fim? A razão respondeu que
esse amor seria eterno e que um dia ele iria compreender. O coração chorou e
gritou mais alto, bateu com toda a sua força, revoltado... Mas acima de tudo,
infeliz. O pequeno coraçãozinho sentia-se resignado, já tinha aceite o seu
destino. Só o coração se debatia contra a mãe-natureza e a razão. Porquê
fazerem-no sofrer tanto? Que iria ser do seu coraçãozinho? E que faria ele com
tanto amor que transbordava de si mesmo? A razão por muito que tentasse, não
conseguia acalmá-lo. Tentou fazê-lo ver que se o pequeno coração continuasse
junto dele, ambos iriam sofrer mais e mais tarde. E que, possivelmente, o
sofrimento seria maior. Era chegada a hora da separação. O coração chorou todos
os dias e, para se proteger, tentou ignorar e desprezar o seu coraçãozinho. Mas
era impossível e inaceitável. A razão incentivou-o a amá-lo uma vez mais. E o
coração amou. Acarinhou o seu pequenino, conversou com ele, mimou-o como tantas
vezes o fizera. Despedia-se, a cada batimento, a cada pulsação. Sentia-se muito
infeliz e perguntava-se, o que teria feito de errado... Porque é que o seu
coraçãozinho não podia viver e ficar com ele para sempre? E a razão sussurrava
"mas ficará...". O coração começou a acreditar, a ter fé, de que o
seu pequenino estaria sempre com ele, mas que tinha de partir, para não sofrer.
Encheu-se de coragem e falou com a mãe-natureza, pediu-lhe para que ela não
magoasse o seu coraçãozinho. Pediu ajuda à razão, para que ela o ajudasse a
superar tamanho sofrimento. A razão respondeu que estaria sempre ali, que nunca
o iria deixar esquecer aquele grande amor e, que lhe daria forças para
continuar. Deixou-os a sós... E eles amaram-se uma última vez. Choraram e
prometeram amarem-se para sempre. Quando, finalmente, o coraçãozinho o
abandonou, e a mãe-natureza o levou, o coração explodiu de tanta dor... perdera
um grande amor. Hoje, vive e bate, perguntando-se porquê... Porque é que foi
presenteado com tão belo e verdadeiro amor, para depois ser-lhe arrancado sem
dó nem piedade? Porquê receber tão belo presente, para depois ter de chorar a
sua perda? Apesar da angústia em que vive deste então, o coração sente que o
seu coraçãozinho não o abandonou por completo. Sente que ele está sempre por
perto. Mas sabe que tem de o deixar partir... Que o seu pequeno coração deve
voltar para o seu mundo, puro e inocente. A razão acaricia-o e diz-lhe que,
talvez um dia, ele possa amar assim de novo, e sem sofrimento. O coração tem
medo e não sabe o que fazer com tanto amor que sobrou. Deseja que a razão
esteja certa e secretamente anseia por um novo pequeno coração.
Carla André
Carla André
Sonhei contigo...
21 de Janeiro de 2013
Hoje sonhei contigo meu amor. Foi o sonho mais doce que tive até hoje. Eras o bebé mais lindo e meigo que eu jamais conheci. E eras o meu bebé. Tinha-te nos meus braços, a embalar-te docemente. E tu assim ficaste, sossegadinho, encostado a mim, sentindo todo o meu amor por ti. Tinhas vestido o fatinho azul-clarinho que eu te comprei. Estavas lindo meu anjinho! O teu olhar cheio de ternura iluminava-me e, eu brilhava de tanto amor que tinha para te dar. Infelizmente, esse sonho não se quis realizar... Hoje, magoa-me todo este amor que ficou no meu peito. Era teu, todo teu... E eu estava tão mais que preparada para o partilhar contigo. Ias ser o meu amor mais lindo e eu ia ser a tua melhor mãe do mundo. E eu sei que tu sabes que sim. Ontem, quando vi as tuas fotos, chorei por demais, estavas tão doente, meu amor. Não merecias... Mereciamos ter vivido um grande amor, o nosso grande amor que crescia, a cada dia, dentro de mim. Não foi esse o nosso destino, meu anjinho. Mas esta noite, presenteaste-me com este lindo sonho de amor. E eu senti-me tão feliz enquanto sonhava. Eu sei que terias sido esse meu bebé. E será sempre essa imagem que guardarei no meu coração. O meu bebé lindo e meigo, que teve de partir mais cedo. Amar-te-ei para sempre meu anjinho.
Carla André
Hoje sonhei contigo meu amor. Foi o sonho mais doce que tive até hoje. Eras o bebé mais lindo e meigo que eu jamais conheci. E eras o meu bebé. Tinha-te nos meus braços, a embalar-te docemente. E tu assim ficaste, sossegadinho, encostado a mim, sentindo todo o meu amor por ti. Tinhas vestido o fatinho azul-clarinho que eu te comprei. Estavas lindo meu anjinho! O teu olhar cheio de ternura iluminava-me e, eu brilhava de tanto amor que tinha para te dar. Infelizmente, esse sonho não se quis realizar... Hoje, magoa-me todo este amor que ficou no meu peito. Era teu, todo teu... E eu estava tão mais que preparada para o partilhar contigo. Ias ser o meu amor mais lindo e eu ia ser a tua melhor mãe do mundo. E eu sei que tu sabes que sim. Ontem, quando vi as tuas fotos, chorei por demais, estavas tão doente, meu amor. Não merecias... Mereciamos ter vivido um grande amor, o nosso grande amor que crescia, a cada dia, dentro de mim. Não foi esse o nosso destino, meu anjinho. Mas esta noite, presenteaste-me com este lindo sonho de amor. E eu senti-me tão feliz enquanto sonhava. Eu sei que terias sido esse meu bebé. E será sempre essa imagem que guardarei no meu coração. O meu bebé lindo e meigo, que teve de partir mais cedo. Amar-te-ei para sempre meu anjinho.
Carla André
Até um dia meu amor!
27 de Janeiro de 2013
Meu anjinho... hoje faz duas semanas que me deixaste. Os nossos corpos se separaram para sempre, mas as nossas almas continuam unidas pelo amor que existiu entre nós. Tenho saudades tuas meu anjinho... Um vazio imenso habita dentro de mim, desde que te foste, meu amor. Acredito que já eras parte de mim quando me encontraste... Os nossos corpos se uniram porque nossas almas se pertenciam. Escolheste-me como tua mãe e eu acolhi-te no meu ventre. E ofereceste-me um vislumbre do que é voltar a amar incondicionalmente. Este amor será sempre teu meu anjinho. Até um dia meu amor!
Carla André
Meu anjinho... hoje faz duas semanas que me deixaste. Os nossos corpos se separaram para sempre, mas as nossas almas continuam unidas pelo amor que existiu entre nós. Tenho saudades tuas meu anjinho... Um vazio imenso habita dentro de mim, desde que te foste, meu amor. Acredito que já eras parte de mim quando me encontraste... Os nossos corpos se uniram porque nossas almas se pertenciam. Escolheste-me como tua mãe e eu acolhi-te no meu ventre. E ofereceste-me um vislumbre do que é voltar a amar incondicionalmente. Este amor será sempre teu meu anjinho. Até um dia meu amor!
Carla André
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