domingo, 3 de janeiro de 2016

Tenho me remetido ao silêncio... Tentar não tocar na ferida. Uma ferida que não sarou nem cicatrizou. Uma ferida que dói só de olhar para ela. Tento não olhá-la, tento ignorá-la. Fingir que não existe e escondê-la bem no fundo da minha alma. Mas a alma também adoece e a dor é muito poderosa. Uma dor que trespassa o corpo, ferindo-o cruelmente. Sim, tenho me remetido ao silêncio, guardado toda a dor em mim, me magoando cada vez mais. Tenho me maltratado, como se merecesse punição. Continuo inconformada, revoltada, irada. E triste, muito triste, decepcionada. E sei que este turbilhão de sentimentos e pensamentos me magoam o coração e a alma. Não sei como me curar ou sequer se existe uma cura. Existe alguma forma de sanar o coração de uma mãe que perdeu um filho? Uma mãe que foi obrigada a tomar a decisão de matar o filho acolhido no seu ventre... Ainda busco essa cura, com lágrimas nos olhos e peso no coração. Três anos estão passando desde o dia em que se descobriu e confirmou a doença. Desde o dia que assinei os papéis e engoli os comprimidos. Desde o dia que dei à luz o meu anjinho. Três anos estão passando desde que começou a semana mais dolorosa da minha vida. E desde então, passaram-se dias, semanas, meses, anos vivendo com esta dor lacerante dentro e fora de mim. Existe uma cura? Tenho me remetido ao silêncio, porque olhar ou tocar a ferida é fazê-la doer ainda mais. Não olhar nem tocar é fingir que não dói. É tentar esquecer a tristeza e oferecer um sorriso todos os dias. É guardar as lágrimas para o silêncio da noite. É esconder a dor de mim mesma, apesar de senti-la doer bem dentro, bem fundo, no meu coração.
Carla André

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