Tenho me remetido ao silêncio... Tentar não tocar na ferida. Uma ferida que não sarou nem cicatrizou. Uma ferida que dói só de olhar para ela. Tento não olhá-la, tento ignorá-la. Fingir que não existe e escondê-la bem no fundo da minha alma. Mas a alma também adoece e a dor é muito poderosa. Uma dor que trespassa o corpo, ferindo-o cruelmente. Sim, tenho me remetido ao silêncio, guardado toda a dor em mim, me magoando cada vez mais. Tenho me maltratado, como se merecesse punição. Continuo inconformada, revoltada, irada. E triste, muito triste, decepcionada. E sei que este turbilhão de sentimentos e pensamentos me magoam o coração e a alma. Não sei como me curar ou sequer se existe uma cura. Existe alguma forma de sanar o coração de uma mãe que perdeu um filho? Uma mãe que foi obrigada a tomar a decisão de matar o filho acolhido no seu ventre... Ainda busco essa cura, com lágrimas nos olhos e peso no coração. Três anos estão passando desde o dia em que se descobriu e confirmou a doença. Desde o dia que assinei os papéis e engoli os comprimidos. Desde o dia que dei à luz o meu anjinho. Três anos estão passando desde que começou a semana mais dolorosa da minha vida. E desde então, passaram-se dias, semanas, meses, anos vivendo com esta dor lacerante dentro e fora de mim. Existe uma cura? Tenho me remetido ao silêncio, porque olhar ou tocar a ferida é fazê-la doer ainda mais. Não olhar nem tocar é fingir que não dói. É tentar esquecer a tristeza e oferecer um sorriso todos os dias. É guardar as lágrimas para o silêncio da noite. É esconder a dor de mim mesma, apesar de senti-la doer bem dentro, bem fundo, no meu coração.Carla André
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