domingo, 12 de janeiro de 2014

Um ano sem ti...

Nasceste no segundo Domingo do ano, dia 13 de Janeiro de 2013. Será sempre esta data que marcará a tua partida, mas para mim, será sempre este Domingo, o dia da nossa separação. A esta hora chegava eu ao hospital, o parto estava marcado. No dia anterior, me despedi de ti, escrevendo-te uma carta. Nesse Sábado pedi-te, em pensamento, que tudo corresse bem e que fosse breve... Que nascesses até às 20 horas e que não fosse necessário curetagem. Assim foi, nasceste às 19 horas e trouxeste tudo contigo, deixando o meu útero completamente limpo e vazio. Eu tinha tanto medo. Naquele momento, o meu maior medo era que algo corresse mal e eu já não voltasse para a tua irmã. Eu sabia que não podia fazer nada mais por ti, por isso só pensava nela e de como ainda precisava de mim. Foi ela que me manteve viva até hoje. Eu precisava de viver pela tua irmã. Se ela não existisse na minha vida, eu teria desistido, pois tu eras tudo o que eu mais desejava e sem ti perdi todo o sentido da vida. E foi assim que vivi este ano que passou. Lutando e sobrevivendo porque tenho outro alguém por quem vale a pena viver. Muitas vezes questionei o porquê de nos ter acontecido... Muitas vezes, acreditei ter descoberto o motivo... Outras vezes, pensei que era apenas eu a tentar encontrar respostas para justificar o que aconteceu. Senti-me culpada e por muito tempo não consegui usar a palavra morte, o verbo morrer ou matar. Houve alturas em que me perguntei porque é que a Natureza não o fez por mim, porque não te levou antes... Ela enviou-me todos os sinais de que algo não estava bem, mas manteve-te dentro de mim. Fui eu que tive de te expulsar. E acho que é isso que mais me dói, meu anjinho. Fui eu que te matei. Apesar de saber que tinhas aquela grave doença e que não havia nada para te curar, magoou-me muito ter de tomar essa decisão. Após o resultado da autópsia, sei que ias acabar por morrer dentro de mim, mas nem por isso me sinto mais aliviada pelo que te fiz. Eu sei que só antecipei o que iria acontecer e que o fiz para evitar que sofresses, mas mesmo assim, não consigo deixar de me sentir culpada. E acho que foi a culpa que me manteve triste todo este ano. Eu quero acreditar que se ficaste comigo durante aquelas 18 semanas, foi porque te era necessário... Seria o tempo que precisavas para cumprir a tua missão, seria o meu amor que precisavas para concluir o teu destino. Sei que agora é a vez de eu cumprir a minha missão, apesar de não saber qual é.... Mas sinto, que de alguma forma, estou no caminho dela. O meu tempo de luto foi necessário para receber mais força e agora sinto que devo usá-la para tentar ser feliz todos os dias, mesmo que só um pouquinho. Tu não vieste à minha vida para eu ser infeliz eternamente... Tu vieste para me mostrar onde está a felicidade. 

Carla André
Hoje faz um ano que nos separámos. Foi no segundo Domingo de Janeiro de 2013. Hoje a ferida está mais sarada, mas não curada. Pergunto-me se alguma vez se irá curar... Penso que não, estas feridas duram para todo o sempre. Tal como o meu amor por ti. Foi tão bom ser tua mãe, apesar de ter sido por tão pouco tempo... mas sinto que serei tua mãe para sempre. E sinto que é tempo de recomeçar, de voltar a viver, de tentar ser feliz novamente. Devo afastar a tristeza e recordar o quanto me fizeste feliz. E agradecer pela tua visita. Foi neste Domingo que nossos corpos se separaram, mas sei que continuamos unidos por este amor que nasceu no meu coração. Viverás nele para sempre, num cantinho que guardei só para ti. E acredito que, onde quer que estejas neste momento, ficarás feliz por me veres, finalmente, a recomeçar. Nunca te irei esquecer, meu anjinho... Sempre e para sempre te irei amar.

Carla André

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Viver...

Viver... Devo viver, apesar de teres morrido. Viver, apesar de não poder partilhar a minha vida contigo. Viver, apesar da saudade e tristeza que habitam no meu coração. Viver e sorrir, mesmo quando a vontade é de fugir. Mas fugir para onde? Fugir de quê? Não posso fugir de mim e do que aconteceu. Devo viver sim... Viver o presente e conviver com o passado. Passado que tanto me dói. Tentar tornar-me em alguém melhor. Mas não sei se já melhorei ou se piorei... Só sei que me transformei em alguém mais triste. Guardo as minhas lágrimas, e choro-as a sós, quando não aguento mais esta dor no meu peito. Parei de viver quando partiste. Parei no tempo quando me disseram que tinhas uma doença grave. Parei a minha vida quando te libertei da tua. Mas a vida não parou. O mundo continuou a girar, o tempo a voar, as pessoas a correr. Só eu fiquei parada, a olhar a minha vida que morria lentamente. Vivi e morri, cada dia, desde que te devolvi. Ninguém imagina o que é voltar para casa "sózinha", vazia... ver morrer os seus sonhos e a sua alegria. Mas a vida continuou a mover-se, como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido. E eu não percebi que lição me quis ela ensinar. Eu sei, meu anjinho, que te prometi muitas vezes que ia tentar mudar, viver, amar, mas é tão difícil... Nunca mais serei a mesma pessoa, nunca mais. A tristeza estará sempre presente e o vazio também. Desde que me lembro, sempre andei perdida e poucas vezes me achei... mas contigo me reencontrei e sem ti me perdi mais uma vez. E estes dias de Janeiro conduzem a minha mente em direcção ao ano passado, quando tudo aconteceu. E é mesmo muito doloroso relembrar cada momento que vivi apartir do dia 5 de Janeiro. Como se sobrevive a uma tragédia destas? Eu não sei, vou apenas caminhando sem rumo, sem sentido. Caminhado e engolindo a minha dor. Mas sei que tenho de viver, voltar a respirar sem sufocar, sorrir sem lágrimas, caminhar sem olhar para trás. Porque tu não estás no passado. Tu estarás sempre aqui comigo, sempre... no meu pensamento e no meu coração. Eu sei. Eu sinto. Talvez seja eu própria o meu maior obstáculo a superar. Talvez seja eu que não me permita ser feliz novamente. Penso que tenho medo de te perder, de te esquecer, de viver e me soltar da tua recordação. Eu não queria ser feliz sem ti. Mas eu sei que não posso continuar assim... Já é tempo de voltar à vida. Dia 13 de Janeiro faz um ano que partiste. Talvez faça desse dia, o dia do meu recomeço. O dia em que voltarei a viver... 

Carla André