
Meu anjinho hoje é dia 13 de Maio... A 13 de Janeiro partiste meu amor. Nascias a 4 de Junho, de amanhã a três semanas, data prevista... Por muito que eu tente não pensar, não consigo e a tristeza me visita todos os dias, em especial, quando recordo estas datas. As lágrimas me acompanham de cada vez que me lembro destes momentos, os que existiram e os que nunca irão existir. Um vazio profundo vive dentro de mim desde que eu soube da tua doença, desde que assinei a tua sentença. Soube logo, naqueles tristes instantes, que nunca mais eu seria a mesma... Tenho tentado não pensar, não lembrar, mas é impossível, fazes parte de mim. Por vezes sinto que já vivi isto em outra vida, sinto-me como se já conhecesse esta dor de algum lado da minha existência. Como se o destino fosse o mesmo, inalterado, até eu conseguir corrigir o erro certo... Compreendes meu amor?! Como se nunca tivesse conseguido ultrapassar este momento e, como tal, ser condenada a revivê-lo vidas e vidas seguidas até me libertar da dor. Sim, são teorias minhas, mas por vezes sinto que estou perto da verdade. Ninguém imagina as vezes que eu ainda adormeço a desejar que tudo isto seja um pesadelo e, que no dia seguinte quando eu acordar, tu serás saudável e estarás ainda comigo, no meu ventre... À espera do nosso grande momento. Mas esse "grande momento" foi à quatro meses, quando partiste. O grande momento de dor. Sobrevivo todos os dias, infeliz, com a certeza de que se não fosse pela tua irmã, eu teria desistido da vida quando te perdi. Foste tão importante para mim meu anjinho. Amei-te tanto meu amor... Mas o nosso amor estava condenado. E eu condenada estou, a sofrer por um amor que não se concretizou. Mas é eterno o que sinto por ti, serás sempre parte de mim. Viveste comigo 4 meses e meio e sempre que o recordo, apesar da profunda tristeza, sinto o profundo amor que ficou da tua existência em mim. Amo-te muito meu menino... Para sempre meu anjinho.
Carla André
Pode uma folha, quando cai da árvore no inverno, sentir-se derrotada pelo frio? A árvore diz para a folha: "Este é o ciclo da vida. Embora você pense que irá morrer, na verdade, ainda continua em mim. Graças a você estou viva, porque pude respirar. Também graças a você senti-me amada, porque pude dar sombra ao viajante cansado. Sua seiva está na minha seiva, somos uma coisa só."
Manuscrito encontrado em Accra - Paulo Coelho
21 de Abril de 2013
Meu anjinho, tenho de deixar de pensar no que seria porque nunca será. Ao imaginar como seria agora, se ainda estivesses comigo, mais me magoo. Ao pensar em como seria quando nascesses, mais me firo. Mas não consigo deixar de pensar e imaginar em como seria. Não sou masoquista, sou inconformada... Sei que tenho de aceitar o que aconteceu e avançar, mas a tristeza é forte demais e parece que me recuso a abandoná-la. É como se ao fazê-lo, estivesse a abandonar-te, a esquecer-te... Mas eu sei que sempre te recordarei, o que vivi e senti contigo, o que imaginei que viveríamos juntos nunca esquecerei. É isso que tanto me entristece, o futuro que nunca existirá. Tenho tanta pena que os meus sonhos e desejos não se tenham realizado... Sinto-me traída pelo destino, pela vida. Perdi-te e tenho de aceitar. Tenho de me conformar, porque nunca te terei de volta. Tenho de te deixar ir e não mais pensar no que foi e no que seria. Acabou à 14 semanas... E agora só tenho que avançar, lutar e viver. Mas sempre te amar e nunca te esquecer.
Carla André

"Cada criança que nasce saudável é um milagre da vida", disse o médico geneticista. Ele disse que tanta coisa pode correr mal desde o início da concepção, que é um milagre cada vez que nasce uma criança saudável. Ao ouvir tal frase, chorei... Não foste um milagre mas foste uma dádiva de amor. A tua doença foi culpa de nada ou ninguém, simplesmente foi um erro da Natureza. Fiquei esclarecida desde então, mas continuo sem me conformar, sem entender porquê... Sei que não posso continuar a pensar no porquê, porque existem perguntas que não têm respostas. É algo que transcende a todos nós. Receio que se continuar a me questionar, nunca mais terei paz de espírito. E eu preciso dessa paz para voltar a viver, não como antes, porque isso será impossível... Ninguém consegue voltar a viver como dantes depois de tal ferida e mágoa na alma. A dor estará sempre presente e quem me conhecer realmente, verá a tristeza no meu olhar apesar do sorriso que eu lhe possa oferecer. E é por isso que muitas vezes não te escrevo, meu anjinho. Tenho medo de me afogar neste mar imenso de tristeza e não mais me consiga salvar. Não posso continuar assim, a tua irmã precisa de mim... Mas nunca te irei esquecer. Viverás para sempre no meu coração. Sempre. E hoje olho o calendário, faço contas, mesmo sem querer, e sei que nascerias dentro de 4 semaninhas. E ontem fez 16 semanas que partiste... Todas essas datas e momentos não saem do meu pensamento, mas eu sei que devo fazer um esforço para não pensar tanto e viver cada dia sem me magoar mais. Sabes, há quem não me compreenda, porque tu ainda e apenas vivias dentro de mim. Mas se para uns eras nada, para mim eras tudo. Perdi um grande e verdadeiro amor. Todos os outros problemas e dificuldades da vida tornaram-se, para mim, fúteis e superficiais. Nada magoa mais do que perder um filho. Seja de que idade for. Acredito que é mesmo assim. E acredito que amor de mãe é eterno sim... A sementinha do amor germina ao mesmo tempo que o embrião se forma e se desenvolve dentro do ventre da mãe, e apartir daí, cresce a cada dia de vida vivida em comum. E se por algum motivo, essa vida for interrompida, o amor perdurará para todo o sempre. Por isso serás para sempre o meu menino, o meu bebé lindo... "Baptizei-te" de André de Sousa, o meu último nome e do teu pai. Só soube que eras mesmo um menino depois de saber que estavas doente, por isso ainda não tinhas um nome. Foi uma enfermeira que me aconselhou a fazê-lo. No início neguei-me a pensar nisso, porque simplesmente não ias ficar, não ias viver, mas pouco tempo antes de nasceres, pensei que merecias um nome e escolhi André de Sousa. Um nome bonito para o meu anjinho... Sabes que não sou católica, por isso "sou contra" o baptismo, mas como sabia que o teu pai até gostaria de te baptizar tinha resolvido aceitar, com uma condição, os padrinhos seriam os teus irmãos, a Cátia e o Eduardo. Tinha tantos planos para ti, para nós, mas a vida não nos permitiu viver os meus sonhos e desejos. Não, a vida resolveu pôr, de novo, a minha força e coragem à prova, como se eu já não tivesse sofrido o suficiente. Parece que não e portanto tive de sentir na pele um sofrimento maior, desvastador. Não é justo, ofereceu-me a tua presença e destroçou-me com a tua ausência. Mas antes disso, obrigou-me a tomar a decisão mais difícil de toda minha vida... Pôr um fim à tua vida. Lembro-me bem da noite antes de te ausentares do meu corpo. Senti-te a encolheres-te no meu ventre, e percebi que morrias. Não mais te senti e no dia seguinte partiste. Passados quase 4 meses, sinto ainda a mesma mágoa e uma recente revolta contra a vida e o destino. E aquele porquê insiste em me atormentar... ou talvez seja eu que me torturo com o porquê de nos ter acontecido. Sei que íamos ser muito felizes juntos e lamento muito o que nos aconteceu. Sinto a tua falta e tenho saudades de ti.
Amar-te-ei para sempre meu anjinho...
Carla André